Luiz Nogueira Barros
   
   
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IN MEMORIAM




11/02/2010 - 17h16min

Finados...

Assim são os nossos mortos: queridos e inesquecíveis !

Fonte: Luiz Nogueira - nogueirabarros@uol.com.br

Finados, findados, terminados, concluídos, sei lá qual termo deveria ser usado para os nossos mortos queridos e inesquecíveis, até porque nem mesmo sei se eles, de fato, estão mortos, senão que apenas ausentes, embora os seus antigos olhares e gestos estejam vivos nas nossas memórias. Olavo Bilac ouvia as estrelas dentro da imensidão do céu e Drumond de Andrade nos dizia que as coisas findas, muito mais que lindas, estas, sim, ficarão.
Assim são os nossos mortos: queridos e inesquecíveis ! Passaram? Claro que não!
Como poderia haver apenas findado a minha amiga Lailda Tenório Ferro (Idinha), se os seus grandes e suaves olhos ainda irradiam, luminosos, a mesma doçura e a mesma superioridade de quem olhava o mundo dos sofrimentos dos píncaros da sua superioridade espiritual de criança feliz e assustada? Como poderia haver findado a professorinha que dava aulas na Escola Tereza de Jesus, para crianças pobres, obstinada, para, depois, cuidar dos pobres e desprotegidos desse mundo de meu Deus, haver sido o anjo bondoso do seu pai durante a longa travessia que o levou para a morte e, ainda assim, encontrar tempo para amar e casar com o grande amor da sua vida e juventude?
Como poderia apenas haver findado o meu queridíssimo amigo José Mendes Filho, com todo aquele "corpão" desajeitado e carregado por uma alma leve, etérea e frágil (coitadinha da alma do meu amigo, como teve trabalho!), os cabelos e a face de índio (Asteca, Inca, Chucuru, nem sei qual), a voz de trovão, e fantasma que ainda avisto emendando os fios elétricos do Teatro Deodoro, quando da construção do Arena Sérgio Cardoso, ou então pelos festivais de arte em Marechal Deodoro, São Cristovão (Sergipe) e Universidade de Aracaju? Como poderia estar o morto o meu queridíssimo Mendes Filho se a sua imagem ainda grita pelo palco do Arena Sérgio Cardoso encenando a minha peça de teatro "O que se passa com o rei?", num dos momentos mais difíceis da minha vida, quando eu enfrentava os problemas da censura e das prisões políticas, e a quem dediquei o meu primeiro livro que leva o nome da peça de teatro?
Não posso aceitá-los como mortos, nem finados, nem concluídos, nem terminados, senão como passageiros de uma longa viagem, uma linda viagem que todos faremos um dia. De uma longa viagem que espero nos conduza a um local luminoso para um encontro também luminoso.
Rendo-lhes, é verdade, ao meu queridíssimo amigo Mendes Filho e à minha amiga-comadre Idinha, a homenagem convencional aos mortos, com as flores que tanto enfeitam a vida como enfeitam a morte, imagem que somente os poetas inventariam, porque os poetas são os loucos lúcidos sem quais o mundo seria o caos, uma tristeza sem fim. Amém poetas, que vocês existem para que a fantasia não morra! Mesmo quando são duros os poetas são suaves, e esse é o mistério que os fazem eternos. Mesmo quando são duros e falam em pedras os poetas são notáveis. Fernando Pessoa nos diz que "Todo o cais é uma saudade de pedra", fazendo-me lembrar (desculpem-se se a comparação for grosseira, pois não sou poeta) que todo cemitério, com suas pedras mortuárias com inscrições carinhosas também é uma saudade de pedras, como um cais, um porto, para uma viagem inevitável.

O Diário. 02.11.95





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