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CONTOS




16/02/2010 - 21h57min

"Dona" Concebida

A preta velha que tinha uma tolda na feira

Fonte: Luiz Nogueira - nogueirabarros@uol.com.br

A preta velha que tinha uma tolda na feira. De tão antiga, sabia contar histórias que ouvira dos pais sobre a escravidão. Difícil era saber se nela o que era mais largo era o seu sorriso, ou o seu coração. Os seus olhos eram vivos e guardavam uma expressão sem amargura, apesar do mundo e dos seus momentos difíceis. E assim, quando ria, parecia que o mundo era todo uma felicidade e que viver era o bem supremo da humanidade. Era como se agradecesse a Deus a permissão de poder viver mais ou menos livre, na sua luta diária.

Na sua tolda passava a maioria dos matutos, nos dias de feira. O feijão cheirava a cominho, aguçando os olfatos mais exigentes. A carne, temperada com óleo, sal e colorau, borbulhava na panela de barro parecendo um quadro-vivo de algum pintor exótico. Mais das vezes, nós, os meninos, também íamos ali e experimentávamos aquela comida feita para os matutos que vinham de longe. vender os seus produtos na feira e aquilo nos causava estranha felicidade. Tanto que, um dia, a "velha" Concebida havia dito para minha mãe:

- Esses meninos não têm juízo. “Repare” se tem sentido eles irem comer na minha tolda!

Trinta anos de ausência e fui visitar "Dona" Concebida. Acompanhado por Nilson e Ernande, encontrei a minha amiga quase cega, numa casinha lá p´ras bandas do Camoxinga. Desmanchou-se em risos quando lhe falei de mim e dos amigos com quem estava. Nenhuma queixa, nenhuma amargura. Apenas, num certo momento, ainda me disse:

– Tudo bem, meu filho. Apenas estou perdendo a visão. Também... com a idade que tenho não "havera" de ser diferente. Deus põe e Deus tira. O que os meninos vieram fazer aqui?

Refleti e lhe falei:

– Talvez a senhora esteja esquecida de que um dia eu e alguns amigos (liderados pelo Celso Nepomucen ) andamos lhe roubando duas galinhas, quando a senhora morava lá no "Lajedo Grande.

A minha amiga riu:

– Ora, menino! Que conversa mais tola. Eu nem me lembro mais disso.

Insisti em que ela deveria se lembrar. Tanto que, dizia não mais se lembrar. Isso a fez ficar em silêncio. Depois lhe disse que as tais galinhas haviam servido para um "pic-nic" que havíamos feito num certo final de semana, no qual Zé Lemos havia perdido o ponto de cozimento do arroz fazendo-o virar papa. Coisa que quase lhe valeu umas "piabadas" de todos nós.

"Dona" Concebida relutou em se deixar fotografar. O seu olhar revelava certa tristeza e me fixava com avidez. Os cabelos enbranquecidos contrastavam com a escuridão da sua pele, agora enrugada. Mas alguma coisa muito linda havia pousado na sua fisionomia, plena de candura. Depois, lhe sobreveio certa impaciência. A catarata (vi de perto) embranquecera os seus olhos diminuindo-lhes a transparência.

Um cálculo com juros e correções me fez ver, melancolicamente, que num país inflacionário como o nosso eu não poderia pagar a conta. Contentei-me em lhe dar certa quantia (considerada razoável e complementada por uma das minhas filhas) como recompensa.

Ela riu e me disse:

– Como pagamento não aceito.

Optei por tornar aquilo uma lembrança e ela aceitou. Despedimo-nos, entre risos. Do Rio de Janeiro enviei as fotografias para que o meu amigo Juca Silva os colocasse numa moldura e presenteasse a minha velha amiga, que morreu pouco depois.


Gazeta de Alagoas-14-3-93







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