Luiz Nogueira Barros
   
   
 nogueirabarros35@gmail.com  
.
         
Luiz Nogueira Barros
   

_____________

. Principal

. Notícias

. Entrevistas

. Crônicas

. Contos

. Poesias

. Ensaios

. Fábula

. Teatro

. Fallas
  Provinciais

. Governadores
  da República

. Mensagens
  Presidenciais

. 2ª Grande
  Guerra

. In memoriam

_____________

. Maceió

. Manifesto dos
  Estudantes

. Sessão Solene
  de Instalação
  da Ufal

_____________

. Sobre o Autor

_____________

 
 



Visitantes:

contador de visitas

 

ENSAIOS




18/04/2010 - 09h47min

Valores nordestinos e globalização

A título de alguns esclarescimentos

Fonte: Luiz Nogueira - nogueirabarros@uol.com.br

Publicado na Revista do CEBELA ( Centro de Estudos Brasileiros e Latino Americanos PUC-Rio-Rj-VolumeIX,no3,nova série,setembro-dezembro,2002-página51
Em verdade, tratou-se de um Seminário, realizado na Escola Técnica Federal, do qual participamos eu,Enaura Quixabeira e Vera Romariz, das pessoas de que me lembro. Abaixo, uma foto, com qualidade apenas razoável. Não foi tirada qualquer fotografia com o grupo, antes do início do Seminário:



De saída, o título já implica em limitações. Fica muito difícil falar-se em valores regionalizados dentro de um contexto geral de país e de sua história. De outro lado, novos elementos foram incorporados a esses valores.

Portugal não tinha todas as condições para a aventura marítima a que se lançou. E mais que isso, foi surpreendido pelo tamanho da terra encontrada. Quinhentos anos depois e a confusão sobre o exato ponto do descobrimento permanece com algumas sombras. Recentemente, Lenine Pinto, historiador potiguar, afirma que o Brasil foi descoberto no Rio Grande do Norte, tese que já conta com muitos apoios importantes. A se levar em conta o autor, a expedição fez uma viagem sem intervalos, com água e alimentos, calculados para a travessia, anteriormente traçada por Vasco da Gama, desviando-se, inclusive, de ilhas onde a peste assolava e, sempre foram pontos de abastecimentos obrigatórios. Descendo pela corrente subequatorial, na sua bifurcação, a 10° de latitude sul, ao invés de tomar o caminho das Índias, ã esquerda, tomou o ramo direito e foi para no Rio Grande do Norte, na Serra do Cabugi. Alí está o marco de posse. E nas cartas geográficas antigas encontra-se o mapa de Kantino (Cantino), fincado nas falanges da serra, com uma bandeira portuguesa. E também os rios a que se referem os descobridores. Além do mais, Pedro Alvares Cabral ainda passou dois anos na nova terra descoberta, daí percorrendo 200 mil quilômetros de litoral, detendo-se em São Paulo, na Serra do Caparaó Assim, portanto, se Cabral percorresse 2000 quilômetros partindo da Bahia, iria parar na Patagônia. E em Porto Seguro, Bahia, até hoje, não foi encontrado nenhum marco de posse, senão marcos administrativos, como a indicarem que dali o Brasil seria mais facilmente administrado, distância mais ou menos igual entre os extremos da terra descoberta., obedecendo a alguma decisão de natureza político-econômica. O tema é longo, novo e apaixonante. A 10° de latitude Sul os descobridores podem ter avistado a Serra Lisa, muito semelhante à Serra do Cabugy, inclusive em altura, no município de Chã Preta, Alagoas. Mas nada indica que por aqui hajam aportado, como deseja Jayme de Altavila, historiador alagoano

Dito isso, o que havia verdadeiramente de original era o fato da terra ser habitada por silvícolas, índios, portanto. Assim, é que nossos hábitos culturais vieram nas caravelas.

De um lado, os ricos que para aqui se transferiram trazendo os costumes da realeza e da nobreza. Do outro, o povo em sua expressão mais simples: a mão de obra imprescindível ao desenvolvimento da colônia.

Os ricos trouxeram e aqui fincaram o teatro, o balet, as bibliotecas, as orquestras, a ópera, e tudo o mais que fazia parte das suas realidade.

Os pobres trouxeram todos os eventos chamados normalmente de cultura popular, na verdade todas aquelas atividades com as quais, na Europa, homenageavam a realeza e nobreza. Com a escravidão, dos negros africanos, vieram os cantos de tristeza e novos hábitos alimentares.

O cenário estava pronto para a colônia se desenvolver. Mas, e isso não pode ser esquecido, Portugal precisou dos préstimos econômicos de endinheirados homens ligados ã aventura do descobrimento. E Fernão de Noronha, genovês, financiou as expedições costeiras de 1501 e 1502, momentos marcantes para de mapas que seriam definitivos para o futuro da colônia. Começava nossa dependência. E de certo modo o que hoje se chama de globalização. Fernão de Noronha ganhou o direito da exploração da nossa maior riqueza de então, o pau-Brasil.

Impossível sair traçando uma exata orientação para todos os fatos, seqüenciando, exatamente, toda a história da colônia.

Um fato fica muito claro: Portugal não chegou por aqui sozinho. Com ele veio um verdadeiro enclave racial, alemães, franceses, italianos, turcos-libaneses, judeus e etc. Tal enclave perdura até hoje. E até se pode dizer que o Brasil Português, atualmente, é apenas um tributo histórico a Portugal, pois todas as grandes e importantes atividades, bancos, alto comércio, tecnologias avançadas estão em mãos que não são de portugueses, basta que se visite o sul, veja-se a relação dos nomes dos nossos políticos, deputados, governadores, presidente, artistas, banqueiros e etc. Pouquíssimos são portugueses.

Num seminário como esse, onde tudo cheira a turismo, pelas documentações que recebemos, parece-me, e é preciso uma anotação, a intenção é fazer lembrar, aos nossos visitantes, que somos dos pouquíssimos celeiros do mundo onde ainda existe uma cultura popular. Melhor que se faça alguma distinção entre cultura popular e folclore – algo estacionado no tempo, preso em antigas tradições, num verdadeiro cárcere semântico onde nada se renovou. A cultura popular absorve novas formas de comportamento cultural e cada dia tem uma nova face. Ora redescobrindo valores e ora adaptando valores que nos chegam de fora, hoje, nos aviões e navios de grande porte. Ou então pela Internet, sem contar as revistas, a televisão e outros tantos meios de comunicação modernos.

O Nordeste tem uma característica diferente do Sul. Por aqui ficaram muitos pobres, muitos portugueses que até esqueceram-se da sua ancestralidade. Em que pese sua rica história, sobretudo no período holandês, o Nordeste, canavieiro e escravista, por excelência, foi palco para muitas manifestações depois incorporadas ao cotidiano da criação literária. Por aqui surgiram a literatura regionalizada e grandes movimentos políticos rebeldes, com relação aos reinóis - os portugueses do Reino. Pernambuco, com a expulsão dos holandeses, a Confederação do Equador e a Revolução Praieira, é, talvez, a maior referência que se possa ter com relação a algo de fato nativista.

Com nossos escritores, particularmente José de Alencar e Gonçalves Dias, o índio entra, pela primeira vez, no cenário das figuras que compõem a nossa representação do drama brasileiro. Verdade seja dita, não se pode esquecer do papel de Anchieta e Nóbrega, padres portugueses, cada um com atitude diferente com relação ao índio.

Com Castro Alves, o negro assume a condição jamais imaginada de também personagem do drama colonial. Com Vila Lobos, modinhas populares conhecem uma versão para a música dita erudita, as bachianas. Com Carlos Gomes, o índio torna-se motivo para ópera, aparecendo como figura cuja imponência jamais seria pensada. A Hora do Brasil, jornal do Governo Brasileiro, durante anos, na era Vargas, tinha como abertura a composição de Carlos Gomes. E onde anda todo esse antigo orgulho nacional ninguém sabe.

Muitas composições vindas da Europa aqui foram tropicalizadas. "O Arquidiabo", clássico da Renascença, de Maquiavel, faz-nos lembrar de João Grilo e de Pedro Malasarte, famosos personagem populares.Ariano Suassuna é o grande resistente na preservação de nossa atividade cultural autóctone Coincidência? Talvez. O fato é que nossa capacidade criativa foi se exercitando ao longo dos anos, tudo indicando que teríamos um país inteiramente novo quando nosso destino final, de colônia ou de república, assim o exigisse.

Anos e anos a nossa formação foi acumulando traços que nos davam certa identidade cultural. Boa parte de tudo isso, segundo Luiz Barreto, já não existe na Europa, no qual o ciclo da cultura popular foi definhando com o avento das repúblicas e fim das monarquias tornando-se, desse modo, material bibliográfico. Vejam o espanto dos nossos turistas, no Rio de Janeiro, no Sambódromo, onde os favelados, a maioria de negros, homenageiam seus algozes do passado, os condes,viscondes, condessas, e etc,

Com "a transmigração do trabalho" onde as leis trabalhistas fossem frágeis, ou nem existissem, diminuindo os custos de produção, as grandes potências tomaram nossos mercados e impuseram o que desejaram, produzindo em países distantes, a custos mais baixos. Claro que numa situação dessa natureza não apenas a questão trabalhista seria a única ser lembrada. Com ela viriam outras tantas, sobretudo na área cultura e tecnológica. O computador, o gravador de Cd, o DVD, a televisão de alta resolução, as guitarras elétricas, os carrões, os 'Best Sellers'da literatura universal etc, conheceriam novos picos no processo de transmigração para os países em desenvolvimento, sem contar seus controles que ficaram em mãos cuidadosamente escolhidas. Quem desejar entender melhor essa questão poderá ler a obra "Armadilha da Globalização", de Hans-Peter Martin e Herald Shawman, entendendo a sociedade de 20 por 80, ou sociedade de 1/5, fruto da reunião, em 1998, no Fairmont Hotel, São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, patrocinada pela Fundação Gorbachev, que funciona numa velha penitenciária desativa e dada de presente ao ex-Czar da também ex-União Soviética.

Terminada a Segunda Grande Guerra Mundial em Bretton Wood, Estados Unidos, o dólar foi tornado moeda internacional. Os países participantes tiveram, entretanto, alguns benefícios: manutenção de suas cotas no mercado mundial e controle das remessas de lucros. Mas a década de 70 passou a não respeitar aquele acordo. E por conta disso os novos capitalistas acumularam em torno, e a revelação não é exata, podendo ser bem maior, a fabulosa soma de 7 a 9 trilhões de dólares em seus lucros de negócios. Um mundo novo e ao qual dobraram-se as nações em desenvolvimento, prisioneiras desse montante astronômico em mãos da iniciativa privada. James Tobim, recentemente falecido, prêmio Nobel de Economia, Estados Unidos, sugeriu, na década de 80/90, um percentual sobre a soma revelada, para fins de recuperação do ambiente planetário, mas foi recusada a sua sugestão, com a ameaça de que os escritórios dos ricos poderiam ser transferidos para os navios, em alto mar.

Nos anos quarenta, lembro-me muito bem, tive que trocar meus heróis regionais, o delegado, o padre, o cangaceiro, o juiz, o carreiro, etc, em minhas brincadeiras infantis, por heróis distantes, tais o Capitão Marvel, Capitão Marvel Jr, Homem Borracha, Príncipe Submarino, e outros tantos porque as revistinhas infantis que nos chegavam já nos impunham mudanças de hábito.

E agora cabem algumas perguntas: estamos, de fato, vivendo um processo de inter-lacionamento cultural? Estamos vendo nossa cultura ser substituída, progressivamente, por outras culturas? O que nos sobrará como traço cultural do que um dia fomos?

Maceió tornou-se a capital americana de cultura. Mas quantos sabem, com precisão, das nossas histórias passadas?

Por exemplos: 1) Vicente de Paula, General das Matas, chefe cabano que liderou pretos, portugueses pobres e índios no episódio conhecido como a Cabanagem, chegou a ocupar o Vice-Consulado Inglês, em Maceió; 2) o local onde se ergue o atual prédio da Circunscrição de Recrutamento, foi um forte colonial, e recebeu o general Labatut, francês, a serviço do nosso Imperador, que não estava sendo respeitado pelo general Madeira, português, e que caudilhava o litoral nordestino. Segundo alguns historiadores ele tinha como objetivo destruir embarcações aqui construídas, sobretudo na Praia do Francês, onde existiu um estaleiro. Tanto que, uma fragata aqui construída, a 16 de Setembro, foi incorporada à Marinha Real e até esteve na Guerra do Paraguai. 3) Jaraguá foi fundado pelo português José Martins. Após a Abdicação de Pedro I houve, em Maceió, uma reação, “espécie de mata português”, afugentado-os e que em desespero, corriam para as embarcações que vieram do Corte, para socorrê-los. Depois da grande confusão José Martins foi encontrado morto, no altar da virgem, na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, defronte ao atual MISA. Sua morte nunca foi bem esclarecida. Ao mesmo tempo o velho forte, onde desembarcara o general Labatut, hoje Circunscrição de Recrutamento do Exército, houve a sua tomada por tropas rebeldes e que culminou com a deposição do seu comandante que, alegando motivos de doença solicitou garantia para se transferir para a Corte Imperial; 4) Zumbi, nosso herói negro pode ter sonhado um Estado negro, com o seu Quilombo dos Palmares, história longa, bonita, e quem ler "Formação de Alagoas boreal", de Dirceu Lindoso, melhor compreenderá as nossas duas Alagoas, a açucareira, boreal, escravista, das matas de onde Zumbi fugiu, e a meridional, base do avanço para o interior, das fazendas, da fundação da atividade pastoril. 5) Nossos grandes escritores do passado, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Pontes de Miranda, sobretudo. Mas lembremo-nos de Estácio de Lima, Judas Isgorogota, Valdemar Cavalcante, Aristeu Bulhões, etc. muitas vezes desconhecidos da maioria das pessoas; 6) Dos nossos marechais, Deodoro e Floriano, proclamadores da República; 7) O nosso Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas tem dos maiores patrimônios, acervos, de todo o Brasil. 8) Nossa Catedral Metropolitana tem história, quase entrando para a classificação de Catedral Real, Imperial, deslembrança que os alagoanos daquele tempo jamais perdoaram ao Imperador Pedro II, quando aqui esteve; 8) E a saga de Delmiro Gouveia, precursor da CHESF, com sua Anjiquinho? E enfim, seria difícil estabelecer uma ordem cronológica plenamente satisfatória, num trabalho desse tamanho. Mas é muito fácil estabelecer como, aos poucos, nossa identidade foi deixando de ser motivo de orgulho regional, basta que este trabalho pudesse ser ampliado.

O que estou querendo dizer é que temos história, um passado muito rico. E agora, pergunto-me quais motivos nos levariam a esquecer tudo isso? E mais: porquê, na hora de se desejar passar nossa identidade cultural e inseri-la num contexto de globalização apenas nos preocupamos em ofertar hotéis, lagoas, praias, sururu, ostras e, por vezes, nosso reisado, nossos elementos juninos, caímos no mesmo pecado de sempre: apenas compositores musicais, populares, seguido a linha da MPB, são idolatrados? Será que os nossos turistas não mereceriam também, um roteiro cultural alternativo, quando aqui chegassem? E toda a história da cana de açúcar com a destruição da Mata Atlântica, não teria temas para pungentes episódios? E Jaraguá, como centro comercial, ficaria de fora do nosso orgulho e traço político-cultural? E o Cais do Porto, que envolve temas relacionados com a Segunda Grande Guerra Mundial?

Se apenas, a eles, os turistas, oferecemos praias, hotéis e orla marítima noturna, com suas barracas e boites, então, que se dê melhores condições a tudo isso. Que se melhore a condição da lagoa que produz o sururu, pelo menos. Que sejam criadas organizações que cuidem das festas populares, inteiramente sem apoios, quando são pagas quantias exorbitantes a cantores que aqui chegam e nada têm com nossas tradições e traços culturais.

Maceió, capital americana da cultura precisa, urgentemente, de um calendário que inclua opções culturais para nossos visitantes porque, do contrário, eles jamais entenderão nossos traços culturais, nosso passado.

Façamos o que fazem os estrangeiros, mostrando seus museus, suas catedrais, seus rios e tudo o mais que eles nos vendem a preços altíssimos. Simples exemplos como o Cemitério Pére Lachaise, confessor de Luiz XV, em Paris, onde estão sepultados Joana d´´Arc e Alan Kardec, nos dão a dimensão que eles dão, em importância, aos fatos nacionais. Em Londres, o cemitério onde está sepultado Karl Mar, também é vendido aos turistas.

Ou então o que eles fazem no Brasil, com suas colônias vivendo quase que segregadamente, mantendo suas tradições, com o apoio e carinho da nossa mídia, sobretudo no Sul do país. Porque, do contrário, jamais teremos uma identidade cultural num século e num sistema econômico mundial que prima pela interferência direta nas culturas dos países em desenvolvimento, impondo seus hábitos e traços culturais.








Não foi possível realizar a consulta ao banco de dados