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ENSAIOS




15/05/2010 - 08h57min

Europa Babel

A Europa de ontem: os partos históricos

Fonte: Luz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros (*)


(Eis a estranha Europa de que nos fala o jesuíta Ian Kerkops, professor de Teololgia, sintetizada numa frase: " Uns individualistas capazes de apoiarem os individualismos dos seus iguais")

Europa é plural. Existem muitas. Todas extraordinariamente lindas e sedutoras. Com suas histórias antigas, medievais, modernas e contemporâneas, suas paisagens, seus castelos e seus brasões, suas revoluções e sua cultura universal, as Europas são as ninfas que tanto podem entediar como podem fascinar os homens. Suas realizações são muitas e vão da Renascença, formação dos modernos Estados Nacionais, a Reforma, descobrimentos marítimos, a Revolução gloriosa ( Inglaterra ) e, finalmente, a Revolução Francesa de 1789. Mas também existe a Europa de duas Grandes Guerras Mundiais. Grande e bela, a Europa tem heranças problemáticas.

A Europa da colonização deixou, pelo mundo, filhos legítimos e bastardos. Com os bastardos, é bom que se diga, ELA se relaciona mal, num momento no qual pretende ser um novo " El Dourado", através do Tratado de Maastricht.

A grande pergunta sobre a Europa pode estar contida na expressão do professor Benjamin Barber, da Universidade Rutgers, Nova Jersey, EEUU: " A Europa pode servir de modelo para a democracia ?"

Os Braços Abertos

A Europa de Braços Abertos - título do artigo de Egon Bahr. Versa sobre a Nova Europa.

Um destaque:" Quando a Comunidade Econômica Européia foi fundada, os países do lado da Cortina de Ferro a que Moscou impedira a adesão receberam a promessa de que manteríamos os seus lugares vagos para que os preenchessem quando das suas autodeterminações. Falando no sentido estrito, a Europa deve rejubilar e estender os braços para acolher a Europa do Leste".

O final da Segunda Grande Guerra Mundial dividiu o mundo em dois hemisférios, ameaçando a Europa. A sua resposta foi a criação da Comunidade Econômica Européia (para cuidar da recuperação da economia), e a criação do Tratado do Atlântico Norte, OTAN ( para cuidar da defesa militar), ante a ameaça da estruturação hemisférica soviética. A tese era simples: mesmo as democracias precisavam de estruturas econômicas e militares fortes, ainda que se propalasse que tais requisitos fossem apanágio das ditaduras e materializados no "Mercado Interno" do bloco soviético e no Pacto de Varsóvia. A democracia ocidental copiava a ditadura oriental, temendo a "bolchevização" de outros países europeus. E também as guerras internas.

O professor Egon Bahr sugere o limite do ano 2.000 para que o alargamento da Comunidade Econômica Européia seja satisfatório. Enquanto isso o que sobrou da ex-União Soviética organizou-se em torno da Comunidade Econômica Independente.

Os Migrantes - " A Disputa Entre Três Modelos".

Em 1989 a Comunidade Econômica Européia recebeu doze milhões de estrangeiros. Em 1992 tornou-se uma terra de imigrantes. A Velha Europa, que mandou colonos para o mundo inteiro, finalmente, vai recebendo o rebotalho do processo colonizatório, os pobres e ricos de todo o mundo. Entre os ricos, os donos dos "petrodólares". E entre os pobres os náufragos do Terceiro Mundo.

A França recebe ( recebia ) maior número de estrangeiros, seguida pela Inglaterra e Alemanha. O Tratado de Maastricht tem "uma política de assimilação" dos migrantes, com duas consequências imediatas:

1 - Não conseque impor um modelo único de assimilação
2 - Tem propiciado pedidos de autonomias territoriais, ao criar um cinturão de miséria ao redor da Comunidade Econômica Européia.

Os migrantes da CEE estão divididos em três categorias:

Migrantes legais: consequem visto de longa permanência, com garantias de assitência medica, habitacional e de emprego; 2 - Migrantes não qualificados: com visto de permanência muito curtos, desencorajando os sonhos de longas permanências, sobretudo os do Terceiro Mundo.

Migrantes políticos: recebem melhor tratamento, se figuras políticas destacadas.

A França tinha ( mas Chirac, que está promovendo modificações na legislação, com tendência para a intolerância sobretudo contra os muçulmanos) a melhor política de assimilação. As origens étnicas e nacionais dos migrantes acabavam na segunda geração, enquanto que os filhos dos migrantes alí nascidos podiam adquirir cidadania automática, ao completarem vinte e um anos de idade. Com o Brasil, após a visita de Fernando Henrique, o visto de entrada para turistas foi abolido...

Na Inglaterra os migrantes de antigas colônias são considerados cidadãos nacionais. O pluralismo religioso permitiu o surgimento das comunidades negras organizadas.

Na Alemanha o migrante não consegue cidadania caso não tenha "ascendência alemã". Todo migrante é considerado "temporário". A própria concessão de cidadania implica em que se renegue a origem. Os turcos, particularmente, são os mais indesejáveis. OBS: Recentemente, dia 17.03.99, a Gazeta de Alagoas, na última página do Caderno A, no tópico "Mundo", publica nota sobre o Gabinete Gerhard Schoeder haver encaminhado mudança na legislação alemã, de 1913, sobre a integração de residentes estrangeiros, abandonando a questão da cidadania alemã, dependente estritamente da condição de sangue e raça, com amplas chances de aprovação pelo Parlamento Alemão.

Dos modelos europeus o mais duro é o espanhol, " A Lei de Estranjeria", que dá mal tratamento até mesmo a migrantes que sofrem perseguições políticas, recambiando-os ao país de origem.

Mas a Europa tem o contraste dos "petrodólares", figurado nas "mesquitas", concessão aos ricos.


Os Valores - " Que Valores Têm os Europeus"

O autor é o padre jesuíta e professor de Teologia da Universidade de Lovaina, de nome Ian Kerkops. Um destaque: " O europeu comum deseja uma sociedade dinâmica e espera que a ciência e a Comunidade lha proporcionem, apesar de estar menos disposto a confiar na ciência do que o americano médio. Prefere as reformas progressivas à revolução ou à defesa do "status quo". Vê uma Europa unida como condição necessária para garantir o futuro. Mas, ao mesmo tempo, tenciona manter-se firmemente ligado à sua cidade, à região e ao seu país..."

A crise religiosa e o chamado fim da ideologia foram o ponto de partida para que "os valores" fossem alçados a padrão central dos debates públicos. Sejam do Norte sejam do Sul todos desejam ser felizes, embora levando-se em conta as suas gradações. E então, por vezes, a ordem de importância das coisas pode surpreender, alterando a escala de valores. Exemplos: a saúde vem em primeiro lugar, seguida do trabalho, da religião e, finalmente, da política. A pesquisa é do " European Value Study Fondation", válida para o período 1981\1992. Pequenas exceções mostram que a Polônia é mais religiosa. E que na Holanda os amigos estão em primeiro lugar. A liberdade é a mais preferida pelos países sulistas e a igualdade pelos nortistas. De um modo geral os europeus aprovam todos os planos de paz. Confiam na justiça, muito pouco nos exércitos e muito mais nas suas polícias. Defendem os direitos humanos. Aprovam as políticas ecológicas, desde que elas não sacrifiquem o emprego. Todo bom casamento deve passar pela fidelidade e respeito mútuo familiar. A noção de idade está muito mais ligada a períodos, com as gerações do pré-guerra, trans-guerra e pós-guerra, cada uma com situações diferentes e fatos que interferem na profissão, rendimento e até mesmo na sexualidade. Cada período se defronta com problemas como desorganização e restauração européia, onde se inserem a televisão, a evolução sexual, o automóvel, as drogas, etc. No tocante a Deus a crença é muito baixa. Sendo alta quando se trata da imortalidade da alma, o que garante a sobrevivência de muitas religiões. Mas, o inferno, o céu e a ressurreição estão fora da crença geral. Acreditam na Comunidade Econômica Européia, e muito pouco nos Parlamentos Nacionais. No trabalho, o que vale é a realização pessoal. O dia a dia prevalece sobre as instituições, uma vez que cada geração vai descobrindo ou inventando novas compreensões do mundo. São defensores da moral privada, codinominada de "bioética", tornando-a intocável. São severos com a moral pública e direitos humanos, etc.

Eis a estranha Europa de que nos fala o jesuíta Ian Kerkops, professor de Teololgia, sintetizada numa frase: " Uns individualistas capazes de apoiarem os individualismos dos seus iguais"

O Muro de Berlim

V - " O Muro de Berlim Durará Cem Anos" é título de artigo assinado por Miguel Angel Bartenier, jornalista do "El País", jornal espanhol. Na verdade é uma entrevista realizada com o filósofo Pierre Bordieu, do Colégio de França. Um destaque do texto:

Há todos os tipos de intelectuais: à direita, à esquerda, em cima, em baixo, mediáticos, recatados, rapidamente inflamáveis e incombustíveis a longo prazo.

De saída Pierre Bordieu é considerado um "pensador de periferia", indulgente na aparência, mas intransigente no essencial e de convicções fora do negociável. Pierre Bordieu assistiu à queda do Muro de Berlim. O semanário " Der Spiegel", da Alemanha, havia-lhe encomendado um trabalho sobre o acontecimento. Mas, inusitadamente, não publicou o que o pensador escreveu, no essencial. E nesta entrevista Miguel Angel Bartenier destaca pensamento essencial de Pierre Bordieu, quando ele afirma:

"Se os muros físicos tombaram, outros muros, muitíssimos mais resistentes - os muros psicológicos - continuarão a separar durante cem anos pelo menos duas partes da Alemanha e da Europa, o Ocidente e o Oriente".

Pierre Bordieu vai respondendo a Miguel Angel Bartenier, e este, em seu texto, vai nos permitindo uma síntese das palavras do entrevistado:

" - Muito gente em Berlim pôs velas nas igrejas, sem noção do que iria se passar. Houve subversão, mas não propriamente revolução. Não pareciam contra o socialismo, mas contra a situação na qual se encontravam. A burocracia do Leste foi varrida. O poder estava vago e ocupado pela imprensa, através dos jornais, a mais poderosa força dos dias que vivemos. Costuma-se dizer que o liberalismo e a concorrência trazem a diversidade. Pelo contrário, eles trazem a homogeneidade. Os semanários roubam uns aos outros os jornalistas, as idéias, e todos apresentam praticamente o mesmo produto. Os jornalistas perderam o controle dos seus meios de produção, e o jornal se tornou um soberano. O problema da Alemanha é o da "identidade alemã", colocada após a reunificação com base na tradição da língua como "espírito nacional unificador". Mas no inconsciente alemão ainda está subjacente o nazismo, como língua do povo. Sabemos que o nacionalismo alemão tem muito de uma resistência contra a Revolução Francesa de 1789 ( de vocação universal ), cujo universalismo somente serviu aos interesses e sentimentos franceses, do mesmo modo que o internacionalismo comunista somente serviu ao velho nacionalismo russo. De repente ouvimos: " O nacionalismo está morto. Viva o nacionalismo !". A unificação alemã e a "unidade européia" conhecerão dificuldades. Há diferenças entre os imperialismos inglês e francês. O inglês não se envolveu com os negros, diretamente, mas apenas os estudou e os administrou. O francês levou os negros para a escola. O inglês fracassou e busca parceria fora da Europa, na América do Norte. Já o francês apoia a unificação européia, porque ela poderá ser instrumento para um novo tipo de imperialismo, um nacionalismo em escala superior, cultural. Países como a Itália, Espanha, Portugal e Grécia terão importante papel na unificação, na medida em que se tornarão o contraponto ( fator de equilíbrio ) aos poderosos Alemanha e França. Para os países que perderam os seus impérios, como a França, Inglaterra, Portugal e a Espanha, a unificação significa uma nova e grande aventura, totalmente inserida na lógica da compensação histórica ".


Globalização e fragmentação ameaçam a democracia ", assinada pelo professor Benjamin Barber, da Universidade Rutgers, Nova Jersey.

Um destaque : " Os novos guerreiros da identidade local na Europa e na ex-União Soviética, como na África e na Asia, parecem estar convencidos de que a autonomia das raças, dos fanáticos religiosos e das facções tribais - mesmo quando obtida pela exclusão, pelas perseguições e pelo genocídios - é a mesma coisa que a liberdade dos indivíduos".

Explicando: Globalização está ligada ao chamado "mundo macro-econômico", decorrente da internacionalização da economia, portanto, um mundo sem fronteiras, dirigido pelo mercado e pelos computadores, que enviam ordens de fraternidade universal através da impessoalidade dos impulsos elétricos, via satélites. É o "MacMundo", nome tomado de empréstimo, pelo professor, do "Sanwich Mac Donald", criando o neologismo "MacDonaldização do Mundo".

A " Regressão Tribal ", das forças tribais, que o professor chama de " Djihad ", está ligada ao fato de que geografia, raças e religiões exigem situações definidas, sob pena de que não sejam evitadas as condições das guerras internas. As regressões tribais estão na Iuguslávia, no Kuwait, Irã, etc...etc.

Portanto, tanto globalização como regressão tribais são fatores que ameaçam a democracia e dificultam a Europa como modelo para o mundo...

( Síntese de artigos do jornal WORLD MEDIA, número 1.033 ( após pesquisa feita pelo European Value Study Fondation, válido para 1982\1992 ) que publica matérias de mais de 20 jornais de todo o mundo, inclusive da FOLHA, de São Paulo )Jornal que recebi de Cícero Péricles, quando fazia pós-graduação em Economia, na Espanha.

Médico, cronista e sócio titular do IHGAL- Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Academia Alagoana de Letras

A Gazeta de Alagoas.22.10.96








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