Luiz Nogueira Barros
   
   
 nogueirabarros35@gmail.com  
.
         
Luiz Nogueira Barros
   

_____________

. Principal

. Notícias

. Entrevistas

. Crônicas

. Contos

. Poesias

. Ensaios

. Fábula

. Teatro

. Fallas
  Provinciais

. Governadores
  da República

. Mensagens
  Presidenciais

. 2ª Grande
  Guerra

. In memoriam

_____________

. Maceió

. Manifesto dos
  Estudantes

. Sessão Solene
  de Instalação
  da Ufal

_____________

. Sobre o Autor

_____________

 
 



Visitantes:

contador de visitas

 

IN MEMORIAM




11/02/2011 - 12h12min

Carlos Moliterno

O Caracol !

Fonte: Gazeta de Alagoas

É assim que o vejo: frágil, pequenino embora ágil, carregando a sua casa - A Academia Alagoana de Letras - às costas numa caminhada sem data para terminar. Tem outras casas, é verdade, como todo homem que veio ao mundo para amar, engendrar flores, frutos e se perpetuar nas suas sementes. Tem outros universos, é claro, que é poeta, escritor e amante da grande harmonia universal que faz os homens se enlevarem com as estrelas, a lua, as brisas, os sóis crepusculares e os ventos que desarrumam os cabelos das pessoas extasiadas diante do espetáculo da Criação.
Mas que um simples mortal, Moliterno é um arranjo genético que tem resistido às duras, mas também amenas experiências que a vida reserva a todo o ser humano, e excluído, portanto, do grupo que fenece em tempo lamentavelmente curto - para o desespero dos seus amantes.
Faz pouco tempo levei-o, ansioso, mas ele obstinado, numa cadeira de rodas até a entrada de um centro cirúrgico, ali deixando-o. E ainda recordo das suas palavras:
“- Eu não vou. Vão me levando !...”, pronunciadas com obstinação.
Depois me lembrei de que a zanga e o sorriso são conteúdos inevitáveis dos obstinados. Se as imtempéries, de repente, se abatem sobre os seus projetos existenciais eles se mostram zangados e prontos para alguma resistência, mesmo silenciosa e, se for necessário, também intempestiva. Se, dobram-se os obstáculos, desdobram-se em sorrisos, e tais os semeadores preparam os campos para novas messes.
À entrada do centro cirúrgico, comovido como estava, olhei o frontispício da porta e procurei verificar se havia algo escrito. Nada! Nem mesmo o nome Centro Cirúrgico. Lembrei-me, então, de Dante e das palavras que estão escritas na entrada do Inferno:
“ Renunciai às esperanças, ó vós que entrais”, quando o meu colega médico Marcos Davi, vendo-me absorto, sem palavras, murmurou-me ao ouvido:
“- Pode ir, você já fez o que podia... ”, fazendo-me acordar e me lembrar de que eu também era médico, mas naquela hora envolvido na trama da entrega de um amigo a um destino cirúrgico que lhe violaria a intimidade para extirpar um mal insensível à continuação da vida. Dir-se-ia que eu me contrapunha à fatalidade da deusa Morte, ao entregar o meu amigo a um Deus da Vida - um cirurgião que, nas suas possibilidades humanas, também se contraporia ao transcendental. Continuei sem palavras, diante do jogo da vida e da morte. E então ri um riso pouco intelegível. Depois, recebi uma tapinha nas costas e me afastei, imaginando que o Destino conduziria os acontecimentos, certo de que Moliterno, determinado como tem sido, se ele, o Destino, tentasse trapacear, o enfrentaria com as suas últimas resistências. E apostei no meu amigo, que aos 83 anos ainda falava de projetos com mais fervor que muitos jovens. E dele, o que sempre me sensibilizava era o seu desejo de se fazer uma Enciclopédia de autores alagoanos, para estudantes e pesquisadores.
A idade, em Moliterno é apenas um referencial. E tão somente porque os fenômenos físicos precisavam de uma linguagem que a matemática permitiu, com suas mensurações. No mais, tudo lhe é eternidade, mesmo quando brinca com o destino - jogo reservado aos privilegiados.
E ei-lo, garboso, recomposto, transpirando saúde, aos 84 anos, permitindo que os amigos comemorem a longevidade da sua existência marcada pelas lutas.
Mal descansou e lá estava na Academia, recolocando-a sobre os ombros, sobre as costas, porque, tal um caracol, ele não sabe viver sem levar a sua Casa da Cultura para os caminhos aonde vai.
Tenho a impressão de que a longevidade de Moliterno é um segredo escondido numa ILHA, na qual as ondas, os ventos, as brisas, as nuvens e certos horizontes fazem sonhar o Caracol, nas horas em que ele descansa, despojado da carapaça, recarregando a fantasia...

Luiz Nogueira Barros
Gazeta de Alagoas. 04.03.96





Não foi possível realizar a consulta ao banco de dados