Luiz Nogueira Barros
   
   
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ENSAIOS




11/02/2011 - 14h35min

A ILHA - de Carlos Moliterno

onde o poeta “caminha nas praias ... carregando no seu sangue o Sol que a vida sepultou na infância”

Fonte: Gazeta de Alagoas

Luiz Nogueira

...portanto, fico a me perguntar se conheci outro poeta que tanto refletisse no rosto, na face, a cristalização inteira e total da obra produzida...


Lendo A ILHA, de Carlos Moliterno, lembrei-me da Quinta Sinfonia, de Beeethoven: um compasso quaternário com variações, tocadas por todos os instrumentos da orquestra, de umas vezes, e de outras, com a ocorrência dos chamados diálogos musicais. Aos poucos, vamos descobrindo a repetição temática que se enriquece a cada momento sonoro. Ela é chamada de A Sinfonia do Destino. Com aquelas quatro pancadinhas o destino bate à nossa porta, diz-e a seu respeito e provavelmente o autor há de assim haver pensado. Mas também, no Código Morse, do Telégrafo, significa três pontos e uma linha, equivalentes à letra V e usada pelas tropas vitoriosas aliadas sobre a Berlim, nazista, derrotada durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Mas nem por isso,preciso ir a um clássico do quilate de Beethoven: uma trilha musical do filme Em algum lugar do passado, nos mostra um mesmo exercício musical em torno de um tema, que se repete tocado por vários instrumentos, do piano ao violino, às trompas, e outros tantos, ou então a combinação de alguns e muitas vezes de todos os instrumentos. O interessante, nos dois exercícios musicais, é o fato de não nos causar fadiga, mas antes disso gerar uma imensa expectativa e agradáveis surpresas - fato naturalmente reservado às grandes criações artísticas.
Por vezes, Moliterno faz das maiúsculas alegorizantes, tal Mário de Sá-Carneiro, recurso que lhe permite escrever, no meio dos versos, palavras iniciadas com letras maiúsculas, dando-lhes destaque estético, permitido especialmente aos poetas, ainda bem, que tudo é permitido a esses violadores das nossas sensações estéticas.
A ILHA, de Moliterno, é trabalho de fôlego somente comparável ao de Jorge de Lima, em Invenção de Orfeu, em que pesem temáticas diferentes. Fao da vastidão, que epopéica, da saga moliterniana na ânsia de entender e viver a vida, com suas mentiras, com verdades. Invenções, fantasias e realidades, matérias com as quais somente os poetas conseguem ser mais habilidosos, abstraindo, de tudo isso, o extremamente necessário a uma representação, principalmente, estética, da vida. A ILHA, de Moliterno, é uma repetição temática com variações inesgotáveis em busca de um fim.
Conheci Moliterno já idoso O rosto pequenino. O olhar distante. E um mistério facial que os anos me permitiram entender, agora lendo o seu livro, que seu rosto, sua face, eram a transfiguração, a materialização geográfica de sua obra, da sua Ilha, algo ora carnal e ora fantasia sob o disfarce de uma solidão real, ou inventada propositadamente pela necessidade de alguma distância necessária à criação artística, ou então, ainda, algum prazer supostamente proibido à luz dos sóis continentais e extremamente equatoriais, a pino, daí que muitos preferem a cumplicidade das sombras das noite de luar.
Um mapa da sua existência, o rosto de Moliterno, bastasse eu haver lido sua obra muito antes. Portanto, fico a me perguntar se conheci outro poeta, que tanto refletisse, no rosto, na face, a cristalização inteira e total da obra produzida. Mesmo nas suas rugas, da maturidade, pareciam correr rios de lembranças no solo ressequido, envelhecido, do seu rosto, e aquilo refletia ainda uma rara beleza que as lembranças são capazes de preservar naqueles que viveram a vida e dela desenharam um mapa dos variados momentos da existência que o tempo consumiu em cada tempo - e mister reservado aos grandes criadores.
A ILHA, imaginada, tem de tudo:...”os passos sem memórias dos caminhos”, “um sol recriado em cada manhã”; “uma rosa. Ora rosa e ora peixe, e se era rosa no centro das auroras, era peixe imaturo no crepúsculo”; folhas onde o poeta reflete o seu rosto, e aquele apelo das lembranças que falam do insossego dos sonhos que o poeta não teve”; “ventos que sopram fumaças nos olhos do poeta, das ruínas de todas as viagens”; águas que se levantam para o céu levantado o medo no rosto do poeta”; , tornando a ILHA “ um mapa de esquivanças, de coisas fugidias”, enquanto ele temeroso, desenha com seus dedos “arabescos no ar molhado”, porque as tardes, ali “têm neblinas capazes de encher o olhar de cinza e espanto”; “uma lembrança, ao sol da tarde, fica no mostrador do relógio e o dia se eterniza nos ponteiros”, fazendo o poeta “ mapa e calendário”. A Ilha tem “um ventre inconsumido de onde brotarão rosas”, tais as gestações inevitáveis, quando as “águas descerem motivadas para a fecundação dos seus quentes vales”. O poeta “caminha nas praias da ilha, carregando no seu sangue o Sol que a vida sepultou na infância”; mas, o poeta, de repente vê a ilha submersa e tenta lhe compor um novo mapa, e nada podendo fazer nascem-lhe “ os medos porvindouros”. Para o poeta “não era dia nem noite quando o relógio parou, parou também a vida e a ilha sossegada”, e subiu-lhe do mar “um vagalhão de espuma açoitando seus olhos violados que as insônias roeram no silêncio”, e somente os peixes permaneceram no seu corpo e as escamas sobre as águas fazem que ele em escamas de peixe se converta, embora o poeta insista que do corpo de uma mulher não retirou as curvas da sua ilha, nem dos seus seios as suaves montanhas, porque lhe parece impossível e impróprio “cobrir de branco as suas praias quentes com as formas impuras do pecado”, mas “ a ilha sou eu/ tu és a ilha/ na simbiose/ das nossas faces”, termina o poeta.
Moliterno é, foi, o velho marinheiro que inventou a ilha numa tarde clara. Velho marinheiro sem navio que fundou a ilha mo próprio rosto. E será bobagem imaginar que, aqui, em poucas linhas pudesse eu, aprendiz de analista, esgotar uma saga de 59 sonetos, um livro inteiro. E creio mesmo que, somente um estudo de grupos literários, poderia clarear a saga moliterniana. Mas, deixo aqui minha quase certeza de que Carlos Moliterno ainda não está totalmente decifrado, e o que valeria a pena ser feito. Mas, acredito, está devidamente homenageado, e o que acha pouco e nãoo ideal para as novas gerações de escritores e poetas.

Gazeta de Alagoas, 13. 06.2000

Obs: passível de revisão gramatical . E ficaria feliz se alguém me enviasse possíveis correções....LNB

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