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10/10/2011 - 21h13min

Prazer em conhecê-la, Maceió!

As cigarras estão em minha vida desde os mais tenros anos.

Fonte: Luiz Nogueira Barros

A VIAGEM



O canto, aquele silvo retilíneo com que as cigarras cortam as tardes sejam de inverno, ou de verão, com um som estridente, algumas variações de intensidade, chegavam a doer nos meus ouvidos.As cigarras estão em minha vida desde os mais tenros anos.Aquilo parecia queixumes e inspirava saudades, devaneios e perdições em minhas lembranças.
Cantavam nos coqueiros na Fazendo dos Coqueiros, do 'Seu' Joel Marques, ou nas terras do 'Seu" Nôzinho Falcão, onde os pés de cajarana, as Cajaraneiras, deixavam escorrer das suas cascas um líquido pegajoso, que ia se depositando em seus troncos, de cor amarelo-queimado, formando cascatas e que o meu pai costumava pegar, dissolver em álcool e fazer cola para colar papel.
Saí de Santana do Ipanema nos idos de 50, mês de julho, em direção de Palmeira dos Índios, com meu amigo Nivaldo Cantuária e do seu pai. Dalí seguimos para Maceió no velho trem da Great Westerm. Em minhas lembranças a neta de escravos Téo, a velha empregada que eu jamais esqueceria, acesa nas minhas lembranças, nas minhas insônias e histórias que me contava nas minhas fugas noturnas para o seu quarto, cachimbo na boca, envelhecida, com ares de sacerdotisa, e um olhar sereno e seguro parecia rir.
As lembranças da tragédia política de Mata Grande, com os Malta, no Governo Silvestre Péricles, 1950, também me acompanharam em função da minha amizade com alguns colegas de parte da família que residia em Santana do Ipanema.


A MATA

A Mata foi me permitindo sentir o choque das suas vicissitudes ante a aspereza da vegetação sertaneja. Nas curvas e nas proximidades das estações o longo silvo, seguido de uma fumaça da velha máquina movida por uma caldeira à lenha, que queimava e cujo fogo era abrasador, me fazia pensar numa cigarra gigante, uma cigarra de ferro, acordando tudo por onde passava. Nas estações, as pessoas vendendo de tudo: tapioca, milho cozido, cocadas, pirulitos, frutas, galinhas e tantas outras coisas. que já esqueci. Uma festa.
Final de tarde e meu pai nos esperava na velha Rede Ferroviária. Na plataforma, alguns cumprimentos e seguimos para a minha casa, Rua Comendador Leão, numa espécie de sítio, ampla, descuidada, pintada de cor lilás, telhados aparentes e rodeada por varandas. E os abraços de minha mãe, sempre séria e gentil. E a falsa impressão de que meus irmãos haviam crescido.Na manhã seguinte o Colégio Guido, com todos os documentos trazidos do velho Ginásio Santana. Eu e Nivaldo fomos matriculados. Ele ficaria morando conosco, uma retribuição ao que o velho Cantuária havia feito comigo quando da vinda dos meus pais para Maceió.

A MATRÍCULA NO COLÉGIO GUIDO DE FONTAGLLAND

Vi o Farol, defronte ao Colégio Guido, inclinado, não mais fitando o mar para avisar aos lobos do mar, os comandantes de navios, a proximidade de terras. Tudo havia acontecido um pouco antes da minha chegada, numa noite de chuvas intensas. O Velho Farol, inclinado, olhava para os estragos nas falésias, formações que indicariam, um dia, as águas do mar por ali estiveram, numa clara diferença de que as ribanceiras são condizentes com as presenças das águas dos rios e lagoas.
O Barão de Atalaia havia construído, na garganta que ligava a Rua do Comércio ao edifício da Assembléia Legislativa, um sobrado com vistas para o mar e ali hospedara-se D. Pedro II, em sua viagem a Alagoas, e no futuro seria sede da Confederação Geral dos Trabalhadores, por volta dos anos 60, com episódios que antecederam o Movimento Militar de 1964. O Barão casaria com uma irmã do Visconde de Sinimbu, D. Maria Vieira. O Barão de Jaraguá, seu desafeto político, construiria outro sobrado, mais adiante, tapando-lhe parte da visão para o mar, e onde funcionariam as futuras instalações do Arquivo e Biblioteca, Estaduais.
Depois me chegaram notícias de mortes e destruição de casas. Dia seguinte, ao deixar o colégio, passei na rua e vi as cenas de destruição E o mais notável: Drª Maria Vitória, “Vitorinha”, assim tratada pelos colegas do seu tempo, havia acabado de sair para atender a uma parturiente, escapando da tragédia que também invadira sua casa. Dra Vitória, tal Drª Nise da Silveira, foram duas lendas da medicina, em Alagoas, tempo no qual as mulheres se iniciavam na arte praticamente reservada aos homens.

UM BESOURO DE FERRO



Aquele besouro imenso, o Bonde Elétrico, correndo sobre trilhos de aço, ou de ferro, barulhento, com uma bengala atrelada ao fio, e de onde , por vezes, saíam centelhas de fogo. Aberto, a brisa correndo em nossas faces, tornava a viagem uma aventura. Enfim, eu conheceria a Rua do Comércio, decantada em prosa e versos pelo meu pai, fazendo-me apresentações, sempre loquaz e feliz. Estranha preocupação do meu pai ao me mostrar um prédio na subida de uma ladeira, com o nome de Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Belo prédio, e não entendi seu entusiasmo, até que ele me falou:
-Aqui se reunem os homens mais importantes da cultura alagoana. Estou lhe dizendo isso porque você adora os livros.
E seguimos, num percurso que tomou a nossa manhã. Anos depois, aos 60 anos, tornei-me sócio da entidade que meu pai tanto admirava. Ele havia completado o curso primário que, no seu tempo, equivalia ao ginasial e colegial e permitindo acesso ao nível superior. Alguns dos seus livros, guardados a sete chaves, cheguei a aproveitar. Relutou muito em me permitir que também ficasse com o livro de Alan Kardec, espírita que ele adotava, em seus silêncios e que um dia gerou diálogo grosseiro entre nós dois:
-Pois bem: um dia você estará lendo esse livro, eu estarei morto, mas escreverei meu nome numa dessas páginas.
Felizmente jamais fez isso, até o momento em que transcrevo tal lembrança.
O passeio continuou. Um imenso relógio, O Relógio Oficial, que permitia avistássemos as horas de alguma distância, no encontro das Rua do Comércio e da Rua do Livramento, tinha a magia do tempo presa em seus enormes ponteiros. Fascinava pelo tamanho.

A CATEDRAL METROPOLITANA
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Imponente, sobranceira, com quatro janelas em cada torre, de onde se via toda a cidade, guardava as recordações da visita do Imperador Pedro II que, por razões diversas jamais foi oficializada, transformada, em Templo Imperial, numa Alagoas cuja maior importância, para a época, era a Cachoeira de Paulo Afonso, verdadeiro motivo da viagem do Imperador, de grandes lembranças, Pedro II.
O edifício onde funcionava a Assembléia Legislativa Estadual, na qual se debatiam forças políticas egressas das mais variadas correntes políticas formadas com mais rigor entre os anos 30 e 50, semelhava as construções de Versalhes. Defronte a esse parlamento uma pracinha com o busto de D. Pedro II e uma espécie de piscina, redonda, em torno da qual muitos de nós, Herman Baeta, Hamilton Carneiro, Orlando Lessa e tantos outros nos reuníamos impregnados de preocupações políticas e culturais, nas noites, enquanto o mundo aguardava nossas reflexões e decisões para salvá-lo.


OS LIVROS

Sempre apreciei os livros. Tudo havia começado com Castro Alves, o poeta dos escravos, e nunca mais parei de ler. Natural, que a velha Livraria José de Alencar me despertasse imensa curiosidade. Ali, com o passar dos anos, vi e admirei as figuras de intelectuais que transitavam e discutiam temas que eu ouvia atentamente. Mais adiante, já no curso colegial, no Liceu Alagoano, colégio público e compatível com a minha nova realidade em face das razões de dinheiro e saúde do meu pai, conheci intelectuais que cujas palavras eram ouvidas atentamente. Algumas vezes, ousei me inserir em alguns contextos dos temas discutidos. No mínimo, e era muito, obtive risos descontraídos e aquiescências nos meus raciocínios, daqueles senhores que mais me pareciam divindades. Mas, de algum sempre ouvindo a observação: tem muito mais coisa, mas você chegará lá. Muitos deles foram meus professores, num tempo no qual, diziam que o ensino público era melhor que o particular.
Durante anos o bonde elétrico foi meu transporte regular. E também um trapézio, daqueles que eu via nos circos do interior, e no qual aprendi a tomá-lo e descer em movimento, tais os malabaristas, fugindo do cobrador, molecagem para economizar alguns centavos.


O MAR

O esperado mar, das informações sobre ondas capazes de virar um navio qualquer que fosse tamanho. E o sabor da água salgada, que os mais velhos informavam também ser medicinal. Na vinda para o Colégio Guido eu o havia visto, imponente, colossal, e na curva do infinito separava-se do céu, num misterioso encantamento geométrico. Mas, logo mais, era estar diante dele, dentro dele, mesmo, correr sobre suas areias alvas e comprovar se, de fato, cantantes ante o peso dos nossos passos de contentamento, de alegria. Ensaiei pisar de leve, correndo, ouvidos atentos, esperando o tal ranger cantante daquelas areias brancas. Preferi ouvir o ranger cantante daquelas areias. Fiquei satisfeito e seria mais um a alardear que as areias cantavam ante o peso dos nossos passos. Naquele mar, com a renúncia de Pedro I, nacionalistas alagoanos, brasileiros, solicitaram que os portugueses, colonizadores, saíssem de Alagoas. E na fuga para os navios, as areias ficaram cheias de sapatos, dentaduras, perucas e tantos outros objetos. O português José Martins, possível fundador de Maceió, “que nasceu espúria e sem assentamento autorizado...”, segundo Craveiro Costa, foi encontrado morto, no Altar da Virgem, na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá, talvez não podendo fugir para a capital federal.
Os revoltosos haviam lançado um manifesto ao Visconde da Praia Grande, Presidente da Província, sobre tal exigência.

HOTEL ATLÂNTICO



Mais adiante passaria a morar na Avenida, ao lado velho Hotel Atlântico, imponente construção capaz de encantar o mais humilde dos olhares atentos. E logo soube se tratar do Solar dos Miranda, Hotel Atlântico, uma família cujos membros mais influentes professavam uma ideologia socialista, algo sobre que minhas leituras ainda nada haviam anotado. Somente viria a conhecer Jaime Miranda já cursando o quinto ano da Faculdade de Medicina.
Tudo era diferente. As famílias que ali moravam eram consideradas ricas. Boa parte de grandes comerciantes. Ou de profissionais liberais bem sucedidos. Meu pai ainda não havia sofrido as perdas econômicas que marcaram sua vida. Nem as doenças que o invalidaram, levando-o a uma aposentadoria precoce. Terminei por ir morar na Rua Quintino Bocaiúva, um nome feio, no bairro Ponta da Terra, enlameada, estreita, Depois, para minha surpresa, Quintino Bocaiúva, viria saber tratar-se de figura notável do Império e logo da República.




Na Avenida, conheci um grupo dos meninos ricos de Maceió. Herdeiros dos grandes comerciantes e profissionais liberais.Ou então de famílias mais tradicionais, remanescentes da Monarquia, ainda deslumbrados com títulos já superados pelos tempos.
Uma enorme casa, espécie de Solar, dos Mascarenha, não chamava a nossa atenção apenas por suas dimensões de frente. Era que, no passado, havia sido ponto de encontro de intelectuais de todos os níveis. Raquel de Queroz, José Lins do Rego, Téo Brandão, Armando Wucherer, Valdemar de Oliveira e tantos outros ali haviam criado um universo de intelectuais.
Para nós, os meninos, o solar era a sede de um time de futebol, o Avenida Esporte Clube, no sótão que ficava no fundo construção. Joubert Mascarenhas, filho mais velho dos Mascarenhas era o seu presidente. Guardei, durante anos, fotos que, ao emprestá-las jamais as tive volta. Mas lembro, e muito bem, de algumas nas quais aparecem pelo menos dois destaques: Paulo Mascarenhas, que terminou se tornando coronel do Exército, e Nilton Rodrigues, tornado-se general, com o tempo. Joubert Mascarenha, após o Centro Metalúrgico, no comércio de Maceió, tornou-se proprietário e fundador-representante da FYAT, com o nome MAVEL, Farol
Mas, na Avenida, um time, de adultos, pontificou durante anos, dirigido pelos irmãos Perreli, comerciantes de calçados, no comércio de Maceió. O time reunia o que de mais destacado social e economicamente havia naquela província dos anos 50/60. Seu oponente, em jogos duríssimos era o Demolidor Esporte Clube, originário do Prado, Ouricuri e Trapiche da Barra, bairros considerados de pobres e de classe média. As partidas de futebol eram consideradas touradas, literalmente.
E ali estava o mar colonizado: dos Lusíadas, de Camões. O mar doloroso: dos escravos, dos navios negreiros, o mar cantado em versos por Castro Alves. E sobranceiro, altivo, o Solar do Barão de Penedo, com ares de Monarquia. Do outro lado a Sociedade Fênix Alagoana, de boa parte das elites alagoanas. Saliente-se, de grande importância sobre os destinos de Maceió.


JARAGUÁ

Do cheiro de mel que os caminhões tanques derramavam sobre ao paralelepipedos antigos, em direção do velho Caís do Porto construído por contingências da Segunda Grande Guerra Mundial. Dali o mel seguia para portos distantes de Maceió, impregnando todo o bairro com seu cheiro delicioso. O edifício da Associação Comercial, lembrando os palácios de Versalhes.
E as “zonas”, o dito “baixo-meretrício”, o que sempre me fez imaginar existir, também, um “alto-meretrício”, mas onde, sempre me indagava? O nome Alhambra, bonito e aconchegante, num sobrado, reunia as prostitutas mais caras e mais bem desembaraçadas, bem perfumadas e vestidas com certo apuro. Tomava-se Wisky. O salão de dança era um tanto respeitoso. Outros sobradões tinham o mesmo expediente da Alhambra.
Histórias de moças lindas, enganadas, traídas, mais das vezes forçadas a fugirem de casa por conta de uma moral antiga que apenas reservava as virgens para o casamento na Igreja Católica, povoavam as mentes dos sedutores que adoravam os mistérios que cercavam muitas daquelas jovens e muitas vezes belas prostitutas, bastava lhe conhecêssemos um pouquinho, nas horas de recordações e tristezas. Lá na frente, o Duque de Caxias, com ruelas, becos, favelado, bares abertos e cadeiras expostas, com prostitutas menos requintadas, freqüentadores brigões e que mais facilmente se embriagavam, vez que o custo da cachaça era bem menor
Meu próximo destino foi a mudança para o Prado, Rua Siqueira Campos, um tenente revolucionário de 1922, cuja vida terminaria de modo trágico, num acidente aéreo.


O OLHAR DE HOJE

Ultrapassados os setenta e cinco anos, as cigarras ainda povoam minhas manhãs e minhas tardes aqui no Tabuleiro. São as mesmas da infância: o mesmo canto triste, uma seta contra o infinito, numa viagem que jamais terminará.
Quantas vezes, terminado o curso de Medicina, acordei aflito pensando haver perdido alguma aula. E corria para a velha sede do antigo Exército, aquele mesmo que havia participado da Segunda Grande Guerra Mundial, cedendo efetivos que voltaram contando histórias fantásticas dos seus feitos. E sempre me lembrava de Zé filho, expedicionário que andou pela Itália e que, ao voltar a Santana do Ipanema fundou um cinema. E quantos filmes americanos nos trouxe, com seu heróis longínquos mas nem tanto para que não criassem uma onda de meninos que terminavam por imitar, nas suas brincadeiras, aqueles heróis, bem diferentes das nossas intimidades, fosse o policial, o delegado, o juiz, o jogador de futebol, uma prostituta que se tornasse referência para o nosso desabrochar sexual, fosse o carreiro, aquele homem que passava, num carro-de-boi gritando pelo nomes deles, sempre bonitos.
Agora, os cinemas de Maceió eram muitos, Cinearte, Plaza, Ideal, Royal, Lux e, provavelmente mais alguns cujos nomes já me fogem da lembrança.
Mas as cigarras são as mesmas da infância e juventude. E até me induzem ao sono, fazendo que eu não sinta diferença entre o por e o nascer do sol, tendo a noite apenas como um intervalo, no qual a mansidão das brisas e da lua apascentam uma velhice que parece uma surpresa não sonhada. E uma velha frase me desfaz em devaneios, pronunciada silenciosamente, uma dia, na juventude: prazer em conhecê-la, Maceió! E tantos anos de felicidade.


CARÌSSIMA AMIGA LIBERDADE

Estive lá naqueles distantes e difíceis anos da tua vida, caríssima amiga Liberdade. Uma vida difícil. Arrastada das planícies, rios, riachos, estepes, florestas, desertos, das sombras das delicadas nuvens que se deslocam em céus azuis e de tantas outras situações geográficas da Velha África, viajaste nas caravelas imundas, manchadas pelo odor mortífero do mercenarismo dos colonizadores e aqui chegaste na alma dos escravos. E não adiantou Castro Alves gritar bem alto exigindo que José Bonifácio de Andrade, o Andrada, arrancasse aquele pendão dos ares - o auriverde pendão de minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança/...antes te houvessem roto na batalha / que servires a um povo de mortalha..../-, a um tempo, e a outro mandando que Colombo fechasse as portas dos seus mares para os navios negreiros. Foi tudo em vão. Aos montes, aos borbotões, conheceste as praias brasileiras e depois as senzalas das canas de açúcar, principalmente. E me recordo de que também incorporei os espíritos de Cruz e Souza, José do Patrocínio, Zumbi dos Palmares, João Cândido Felisberto, Machado de Assis e, até mesmo do Negrinho do Pastoreio. Não me lembro se também do Saci Pererê. Quanto devaneio minha caríssima amiga Liberdade.
Estupefato, eu via aqueles quadros dantescos e uma tristeza infinita inundava minha alma e meu coração. Muitas vezes meditei: por quê uma raça, negra (ou outra qualquer, que a história também registra a escravidão branca), primitiva e corajosa deixou-se domar pela força do trabuco, das armas impiedosas, do mercenarismo quase único ao longo da história? E lá na ponta, no extremo do que seria a resposta a mesma conclusão: a morte garantida em caso de reação. E muitas mortes se deram, quando aconteceram reações. O escravo negro era diferente daquele da cultíssima Grécia de Aristóteles. Na África foi prisioneiro tirado do âmago da sua vida tribal. Na Grécia era um derrotado em alguma guerra e feito prisioneiro.Spartacus (Espartacus), na Velha Roma liderou revolta de escravos A História tratou os escravos de modos diferentes.
E me perguntei, caríssima amiga Liberdade, a razão de haveres te tornado a alma dos escravos negros. Inserida nas dobras das suas almas trouxeste dentro deles um continente inteiro: com rios, riachos, estepes, nuvens, desertos, sombras e tudo mais que lhes eram caros, caríssimos e, aqui, em terras brasileiras, recriaste uma Nova África. Sim, caríssima amiga, que o Brasil foi uma África durante os primeiros séculos. E não tenho ainda a convicção de quando deixará de assim continuar sendo. Foram tantos os ensinamentos trazidos do berço negro, na culinária, nas armas de combate, nos folguedos, festanças, nos ritos religiosos, na dança, etc, que uma alma assim tão forte jamais daria motivos para que tudo passasse de um sonho efêmero.
Assim cheguei a Maceió. Ainda carregado das lembranças da Téo, empregada velha que me contava histórias para dormir. Da velha Concebida, a preta velha da feira em cuja tenda, barraca, eu ia tomar caldo de feijão com macarrão, ou melhor, sopa de macarrão.
Em certa manhã, da sacada do Colégio Guido, vi o mar e a paisagem em todo o seu esplendor. Ela era imensa e precisei apurar a visão lateral, ou então virar a cabeça para os lados. E jamais imaginei que anos depois escreveria uma crônica sobre Maceió que, de passagem, abaixo transcrevo e a isso somente voltarei muito mais adiante, nessa tentativa de escrever o possível sobre a minha geração política nos anos de Universidade

MACEIÓ

Do alto do velho farol - que tombou numa noite de chuva - são vistos, ofuscantes, os pontos históricos da cidade. Alguns irradiam os tempos pretéritos imortalizados nas casas e nos sobrados coloniais, por vezes esquecidos em ruas antigas. E outros, dos tempos de hoje, imortalizados pela modernidade do asfalto e espigões de cimento apontados para o céu, vigiados pelas seculares torres das igrejas.
Pela frente tem os mares: O mar epopeico de Camões, o mar lusíada ; O mar político de Cabral, o mar colonizado ; O mar do general Labatut, que nestas águas prestou serviço à Coroa portuguesa combatendo o general Madeira, que caudilhava a Bahia desobedecendo as ordens do Imperador e, em nossas águas ameaçaria as naves de guerra que seriam construídas na Praia do Francês, o mar de guerra ; O mar doloroso de Castro Alves, o mar dos escravos , em cujas praias alvas areias rangem sob o passo dos viventes que por ali transitam com seus sonhos e suas queixas, em busca dos coqueirais incessantemente batidos pelos ventos.
E há, para quem desejar ver e ouvir, fantasmas que ainda nos rondam. Uns que se mostram ao nosso olhar sedento de passado. E outros que nos falam pelas vozes dos ventos antigos. São tantos: Zumbi, que pode ter sonhado um Estado negro; Os Fonsêca e Peixoto, heróis da República ; Aurélio Buarque de Holanda, ainda criando e decifrando palavras ; Jorge de Lima, assustado com o sumiço dos lampiões antigos ; Artur Ramos, em busca dos últimos enigmas antropológicos ; Jaime de Altavilla, à cata de algum poema que não lhe deu tempo para ser escrito ; Pontes de Miranda, ainda debruçado sobre o constitucional e o inconstitucional da condição humana na sociedade; Graciliano Ramos, tonto de espanto por ver a fartura das águas e a secura do seu sertão ; e finalmente Tavares Bastos, assustado com a política dos dias de hoje.
Lá em baixo está a planície litorânea, dominada pelas praias, terraços marinhos, cordões litorâneos, recifes da costa, terrenos semipantanosos dos mangues e terras de inundação dos rios que chegam ao mar diretamente, ou então através de pequenos deltas interiores, da obra do professor e geógrafo Ivan Fernandes. A planície é ligada ao planalto sedimentar dos tabuleiros pelas encostas que, do lado marinho são conhecidas como falésias, e do lado das lagoas e dos rios são conhecidas como ribanceiras. Os tabuleiros ligam a cidade aos antigos vales úmidos da Mata Atlântica que, no passado, forneceram madeira para o Reino de Portugal fabricar suas embarcações colonizadoras e hoje estão cobertos por um tapete de cana de açúcar.
Ao Sul ficam as lagoas, que ao longo dos anos matam a fome dos pobres com o peixe e sururu. Ao Norte estão os grandes ancoradouros dos tempos coloniais.
Lá adiante, num verde-azul perolado pela luz do sol, está o mar de Pajuçara, imortalizado por Aldemar Paiva, o mar imortalizado - com suas águas mornas a banharem, num ritual eterno, os seios e os cabelos das mulheres que se bronzeiam para os atos do amor.

O CURTÍSSIMO TEMPO NO COLÉGIO GUIDO

O sonho demorou muito pouco. Morando na Avenida da Paz, em silêncio, eu via a aflição de minha mãe por conta das noites nas quais o meu pai não dormia em casa. E chegava cansado, pelas manhãs, de olheiras. Dirigia-se para o quarto e somente levantava-se, mais das vezes, após avançadas horas da tarde. E somente pude entender aquele clima pesado quando foi preciso que nos mudássemos para a Rua Quintino Bocaiúva e logo depois para o Prado. E pior: eu teria que deixar o Colégio Guido, com mensalidade cara, sendo matriculado no Liceu Alagoano, de ensino gratuito, público. Tudo, então, ficou muito claro: a casa, que meu pai havia vendido por algo que falavam em torno de cem contos de reis, fins de 1949, para comprar um sítio de coqueiros, em Maceió, Havia sido perdido nos salões soturnos, em cartas de baralho, carteado, na Fenix Alagoana.
O que mais incomodava era a situação de saúde do meu pai, após o segundo infarte, do miocárdio, dependente de medicamentos, com pouquíssimo dinheiro senão o da aposentadoria. Estranho, dizer que não sofri pela mudança de colégio. Meu temor, de fato, seria não poder continuar estudando e no mais nada me dobraria. Minha mãe jamais me ensinou a odiar meu pai. E, se assim o tentasse, provavelmente não teria êxito. Ele sempre foi boníssimo comigo, o filha mais velho, que cuidava, ainda menino, em Santana, dos seus armazéns, na compra de cereais, ajudado pelo “Seu Josué”, um velho funcionário. Os armazéns estavam no nome de minha mãe, somente depois fiquei sabendo disso. Também fazia as feiras de minha casa e, acreditem, todo o final de semana eu recebia uma moeda dois mil reis, de prata, com a efígie do Almirante Tamandaré. Fosse nada disso eu sempre ouvir ser o seu herdeiro, o futuro administrador da família, quase uma profecia que se tornaria realidade após seu grave quadro de doença que o levou para a eternidade, na qual ele tanto cultivava, até mesmo falando das purgações pelas quais passaria, conforme suas crenças na doutrina espírita, do kardecismo, de Alan Kardec.
A mudança para a Quintino Bocaúva, numa pequenina casa, rua lamacenta, trouxe uma situação difícil, dificílima: ainda no colégio Guido, muitas vezes, saí dali, de Ponta da Terra, atravessando sítios de coqueiros, naquele tempo, chegando até a Rua Barão de Atalaia para, dalí, alcançar o colégio onde pouco demoraria. Sadio, jovem, ansioso por estudar, tudo me parecia uma bobagem, principalmente aquele trajeto com os pés que recebera de presente quando a este mundo cheguei. No fundo, até gostava de fazer aquilo, evitando gastar os passes de bonde, ainda possíveis. Com eles, fiz grandes passeios noturnos, conhecendo Maceió. E o preferido sempre foi ir até Mangabeiras, final de linha, onde havia uma igrejinha, num pedaço de lá que chamavam de Cruz das Almas. Era algo que me alimentava os mistérios do outro mundo no qual não acreditava mas, achava um tema tentador, estimulante. A brisa suave, de muitas noites deslizava sobre minha face, carinhosa, indutora de sonhos, mais ainda se fosse noite de lua. Quantas vezes refleti que, mesmo inquieto, afeito às relações pessoais, com muitos amigos, uma certa solidão sempre me invadia. Castro Alves havia marcado, talvez em demasia, as minhas leituras. Uma sua frase, em pomea que não preciso anotar, dizia:”...atravessei a vida sempre orgulhos, concentrado e só / é que sentia que um fadário estranho / meus sonhos todos reduzia a pó...” A poesia de Castro me seguiria por toda a vida. E sempre pedia, que na velhice tivesse melhor dimensão das minhas leituras. Por enquanto, desejaria apenas vivê-las, e mais nada. Nunca pude evitar falar muito comigo mesmo. Um solilóquio, uma coisa temerária, compulsiva.
AS lembranças da minha infância sempre me foram aguçadas pela professora Teônia de Barros, irmão dp Padre Teófanes, fundador do Ginásio Santana. Era doce, boca pequena, olhos pequenos e com a eterna impressão de que riam. Ela me lembrava D, Maria Wanderley, professora de português, no curso primário e no ginásio. Sempre me dizia: - Luiz, você gosta de português e de literatura. Suas redações são boas. Quem sabe, jum dia você será escrtor. Quanta alegria aquilo me dava. E agora, D. Teônia, com a mesma doçura, mesmo diante de textos graves: ...´veja, Luiz, onde o sujeito da oração camoniana de Os Lusíadas. Leia a página tal: ”... porém já cinco sóis eram passados / que dalí nos partíramos cortando / os mares nunca dantes navegados / prosperamente os ventos assoprando...”
E lá um dia repetiu D. Maria Wanderley: ” ...você, menino, poderá se tornar um escritor. Seus textos são inspirados... não fique vaidoso. Antes estude, muito...” Mais tarde, já no Liceu alagoano deparei-me com um professor de português, extremamente temido, quase um carrasco, um tirano. E mais grave, com fama de que bebia uma cachacinha, para variar. Sério, quase intolerante, muitos afirmavam que balançava igual ao pêndulo de um relógio, enquanto dava aula. E lá um dia, uma redação sobre A Cachoeira de Paulo Afonso, para o espanto dos colegas. Senti uma enorme alegria, estranha sensação de conforto. Ali estava Castro, outra vez, me aguardando. Eu havia lido e relido a obra do meu poeta referido, ao menos para os temas palpitantes, quando o Condor, ave fantástica, permitiu o poeta criar a Escola Condoreira . E, para minha surpresa e na entrega das provas eis o Padre Sizenando, solene: ”- Muito bem, quem é o aluno número 28 ?” Apresentei-me. Imerso no mundo das notas baixas, ele foi simpático: ” - Muito bem. Muito bem. Para não lhe estragar, para que você não fique vaidoso antes do tempo vou lhe dar nota 8...”. Foi um escândalo. Uma surpresa imensa. Fiquei em silêncio e agradeci. E ainda ouvi entre inquieto e alegre aquela sentença que me parecia uma ressonância, lá do fundo tempo: - “...Pensando bem, quem sabe, você poderá se tornar um escritor? Estude, meu filho, estude muito. Desenvolva esse sentimento criativo que lhe aflora com facilidade...”
Era assim aquele velho mestre de português: ríspido e competente. Mas justo. Certa vez um aluno foi lhe questionar de nota de baixa. Ele foi breve, brevíssimo: ” - Meu filho, você não lê nem tabuletas, cartazes, que anunciam filmes, nos cinemas, coisa tão comum. Você escreveu silêncio com C , e nem o chapeuzinho, o circunflexo, do E teve o cuidado de grafar. Quanta desatenção com a nossa língua, que devo lembrar-lhe , não serve apenas para auxiliar na mastigação e nem para falar bobagens.Mereceria mesmo era zero.Contente-se, vá estudar...” Na verdade, o velho mestre Sizenando era conhecido por “ Meu amiguinho”, tratamento que dava aos alunos. E por conta de tal afeto o que corria mesmo era o cacete na cuca de quem não estudasse. E estamos conversados, como dizia, sempre.
No Colégio Guido havia um centro de estudos de nome Jaccques Maritaín, uma homenagem pensador, filósofo, teólogo francês, pensador da preferência do velho Cônego Teófanes de Barros. Muito pouco freguentei o Centro, que tinha uma revista de nome Mocidade. Das coisas que o colégio me deixou saudade foi da revista. E de algo que somente depois escrevi a crônica Maceió, já na minha velhice. Muitas vezes, quando escrevia a crônica me perguntava se elea não havia nascido da varanda do velho sobradão onde estava o colégio. Sim, porque ali se descortinava imensa paisagem do mar. O germe, a insinuação, nasceu ali da varanda do daquele colégio, ante o mar que se descortinava, embevecendo-me. Aquele espetáculo da natureza era grande demais para a minha inspiração de então. E disse para mim mesmo: voltarei ao tema, mais adiante. E me espantei quando conheci o meu amigo Lenine Barros, historiador nascido em Natal e que fez a cobertura da Segunda Grande Guerra Mundial. Trouxe o meu amigo para uma palestra no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Ele tem uma teoria sobre o descobrimento do Brasil haver sido descoberto naquela região. E aqui transcrevo o que escrevi, após esse relacionamento fantástico com Lenine:
O autor do livro "Reinvenção do Descobrimento", Lenine Barros Pinto, ao lado de uma réplica dos "padrões" ( marcos de posses portuguesas ) - Museu de Marinha - Lisboa, página 209.

REINVENÇÃO DO DESCOBRIMENTO

Desde o escrito de Platão, no Timeu, que o mito da Atlântida se espalhou na imaginação dos homens. Bom ir lendo, no livro de Lenine Pinto Barros, "Reinvenção do Descobrimento", sobre as "ilhas de fantasia", as fraturas da terra, os afundamentos, os afloramentos de novos acidentes geográficos, a tragédia das civilizações, o furor dos mares e dos ventos, enfim essa saga telúrico-épica que o planeta vem escrevendo através dos milênios, e com a qual Lenine se acumplicia.
Revelando as agonias da terra na sua intimidade sua capacidade de reinvenção do tema , riquíssimo por sinal, Lenine vai se envolvendo com os enredos e tramas dos grandes navegadores do passado
Quem diria: Cristovão Colombo, a serviço da Espanha, foi um espião dentro da Escola de Sagres; "Ixola Otinticha", a "Ilha Verdadeira", pode e deve ter sido o Brasil.
Lenine reabre a questão da Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra, forçando os italianos a transitarem pelos portos portugueses, criando-se uma cooperação na área da navegação entre os dois países. A "PANGAEA", fragmentada por volta de 200 milhões de anos, deu origem aos continentes tal os sabemos hoje...
Quem examinar o Orbis Christianus do mundo medieval verá que a ele foi imposto, pelos descobridores marítimos, um novo espaço geográfico não-euro-asiático e não-mediterrânico, exclusivamente. As legitimidades arcáicas cessaram quando o Fideismo ( tudo passando pelo vontade de Deus), e o Teocentrismo ( Deus como centro de tudo) ruíram por vez, a partir dos pensadores materialistas do Iluminismo, na França. O próprio tempo perdeu sua legitimidade arcáica, da reversibilidade, da natureza cíclica, tornando-se direcional e irreversível...
A comodidade das geografia e filosofia patrísticas, dos doutores da Igreja, foram abaladas. Também foi por terra o espanto de Santo Agostinho – acostumado ao Mundo Trino, da Europa, Asia e África, como representação da Santíssima Trindade, doutrina que atravessou a medievalidade – ao não acreditar que os homens alcançariam outras terras, com esses ou aqueles propósitos, e terras nas quais nem mesmo acreditava, tanto que, escreveu: "Nimisque absurdum est..." ( no mínimo isso é um absurdo...) reportando-se ao fato...
E as terras existam. O problema, durante anos, foi definir se os novos seres, habitantes dos outros continentes descobertos, eram ou não descendentes de Adão, da tradição bíblica, portanto. Ou se se tratava de povos não-adâmicos, talvez até oriundos das formas endiabradas dos anjos revoltados, decaídos, segundo a tradição teológica...
Tais eventos do mundo medieval estão no livro "A Diferença Selvagem", de Dirceu Lindoso, coleção de ensaios do mais alto nível e valor estilístico...
Os Descobrimentos Marítimos, juntamente com a Renascença, a Reforma e a formação dos modernos Estados Nacionais, fazem parte da Idade Moderna, - 1453 \ 1789.
Depoimentos de comandantes da Marinha de Guerra do Brasil
- Do Comandante Alberto do Valle Rosauro: "Servi em Natal no final da década de 60, tendo comandado um navio patrulha (Pirajú) e imediatado uma corveta (Ipiranga). Realmente o Cabugi, pela sua silhueta assemelha-se ao decantado Monte Pascoal".
- Do Comandante Wellington Ferreira Pinho: "A tese é incontestável. O Cabugi é o Monte Pascoal".
Viagem Inicial
Ainda com as palavras do próprio autor e que me foram enviadas por e-mail::
Meu caro Nogueira: eis a síntese do texto que você me solicitou:
"A idéia de Reinvenção do Descobrimento nasceu de uma desconfiança em dose dupla.
Primeiro, o fato do Almirante Jonas Ingram, que trouxera uma força-tarefa da Marinha dos Estados Unidos para patrulhar o Saliente Nordestino à partir do Cabo São Roque - o ponto estratégico mais vital na área do Atlântico Sul -, reconhecer que Salvador, como Base Naval, era superior ao Recife para o estacionamento de sua frota, " mas a distância de 400 milhas faz uma grande diferença". Segundo, pela confissão de Amir Klink, no relato da travessia Luderitz-Salvador num barquinho a remo, de ter descartado "a hipótese de cruzar o Atlântico de Serra Leoa ao cabo Calcanhar, no Rio Grande do Norte, num percurso de apenas 1.500 milhas náuticas", substituindo o atalho lógico por uma rota de 3.700 milhas, "longa, fria e tempestuosa".
Nenhum dos dois fala em Porto Seguro, localizada a cerca de 750 km adiante de Salvador. Além disso, Ingram comandava uma esquadra de navios movidos a motores e Klink estava municiado com dessalinizadores e "quentinhas" desidratadas, balanceadas por nutricionistas. Como é que Cabral poderia ter ido tão longe, sob o empuxo de velas e correndo o risco de escorbuto, sabendo-se, como se sabe, que veio direto de Lisboa, na certa.
Outros elementos comprobatórios foram surgindo. Em 1501, a frota de João da Nova, também de passagem para a Índia mas com o encargo de procurar o Descobridor pelo caminho, passa do Cabo Verde em direção ao Cabo São Roque (por que não a Porto Seguro?), e gasta nesse etapa, coincidentemente, os mesmos trinta dias de Cabral. No primeiro mapa do Brasil, de 1502, São Roque aparece como Cabo São Jorge, nome do orago (Santo do Dia) na data do Descobrimento, 23 de abril (pela contagem do "dia náutico", iniciado ao meio-dia do dia 22). Ademais, como a esquadra cabralina era gigantesca para a época e uma peste se alastrara pela ilha de Santiago do Cabo Verde, era imperioso que procurasse um ponto para reabastecimento. Achou-o, registra Caminha, regozija-se D. Manuel em carta aos reis espanhóis. É a "aguada" assinalada com exclusividade no topo do Rio Grande do Norte em vários mapas seissentistas.
Finalmente, os padrões ou marcos chantados na praia de Touros (RN) e Cananéia (SP), além de atestarem a posse lusitana, delimitam as quinhentas léguas percorridas por Cabral, comprovadamente, ao longo da costa. Se essa medida fosse contada a partir de Porto Seguro (onde existe um marco meramente comemorativo), Cabral teria ido bater na Patagônia..."

MARE CLAUSUM E O TESTAMENTO DE ADÃO

Qualquer discussão sobre a navegação dos descobrimentos marítimos, a partir de Portugal, implica em duas noções básicas. A primeira o fato de Portugal, num certo momento, haver fechado o mar ( Mar Oceano ) para outros navegadores : a chamada política do "Mare Clausum" ( Mar fechado ), já protegido, devidamente, pelo Tratado das Tordesilhas, e expressão tomada de empréstimo do latim. E a segunda a reação do rei de França, Francisco I, rebelando-se contra tal política, quando pediu à coroa portuguesa cópia do "Testamento de Adão", garantindo que o Brasil era ou fosse português..
As Bulas Papais
O poder da Igreja foi extraordinário no ciclo das navegações marítimas. Não vale discutir tudo em profundidade. Mas vale citar algumas "bulas papais", emitidas pelo Vaticano. O demais é assunto para pesquisas extenuantes.
Romanus Pontifex (Papa Nicolau V): concedia direitos a Portugal sobre a África, além de excomungar todos os povos que se colocassem contra aquele país.
Aeterni Regis Clementia ( Papa Xisto IV, 1481) : definia a questão do Tratado de Alcáçovas que deu direitos a Portugal sobre as Açores e Cabo Verde quem em troca havia concedido à Espanha o arquipélago das Canárias. Colombo havia invadido os domínios portugueses das ilhas Açores e Cabo Verde.
Eximia Devotions (Papa Alexandre VI): da família Bórgia, de vida extremamente irregular, protegido pelos reis católicos de Espanha. Emitida a 3 de maio de 1493, quando Colombo havia retornado da sua viagem a 15 de março de 1493. A bula premiava os reis católicos de Espanha tudo o que houvesse sido descoberto a Ocidente do Mar Oceano, contanto que não estivessem sob domínio de outro príncipe cristão.
Por ocasião do Tratado das Tordesilhas,7 de julho de 1494, na cidade de Aravalo, sobre os achados ou descobertas marítimas, a Igreja não perdeu a potestade, quando excluída das negociações. E ficou famosa pelo que se chamou de ‘"Nihil obstat", do Direito Eclesiástico, o que significava conhecer os termos das negociações mas sem poder decidir nem criar obstáculos. Mas quem pode garantir que não haja influído, pelo menos não oficialmente, uma vez que o "direito de excomungar" ainda tinha grande força e movimentava as superstições da época. Tanto que, voltou a legislar, em 1506 com a bula:
Praecelsae Devotions ( Papa Julio II ): que concedia aos portugueses o direito sobre todas as terras encontradas ao este.

ESCOLA DE SAGRES VERSUS POLITICA DE SEGREDOS

Escola de navegação marítima fundada em Portugal pelo rei Dom Henrique ( 1394\1460 ), cognominado O Infante, não era propriamente um "navegante". Discute-se, até mesmo, se tudo não passou de uma invenção dos seus biógrafos ingleses, pelo fato de sua mãe, a princesa Philippa, ser filha de um dos venerandos de Lancaster. Em Sagres foram reunidos astrônomos, cartógrafos, geógrafos, engenheiros navais e militares com fins a desenvolverem a navegação de longo curso.
Três fatos marcaram a Escola de Sagres: a concepção da caravela, embarcacão muito superior às demais da época; as conspirações, e as espionagens. Alguns nomes famosos poderão ser vistos no livro do Lenine. Colombo, por exemplo, parece ter servido aos reis católicos da Espanha. Outros venderam segredos náuticos. Outros tantos vendiam segredos a preço de ouro, tanto à Inglaterra como à Espanha e Itália. A escola criou, por necessidade de Estado, uma política de segredos. Mas estranhamente nos mapas de outros países envolvidos com a navegação apareciam dados que somente poderiam aparecer nos mapas de navegação dos portugueses. Algumas vilanias da política de segredos: Fernão de Magalhães desertou e deu à Espanha a glória da primeira circunavegação da Terra ; os cártografos Diogo e André Homem vendiam cartas de navegação: Simão Fernandes, depois de se tornar exímio piloto, transferiu-se para a Espanha ; Barros Rêgo tinha relações suspeitas com a Holanda ; Américo Vespúcio pode ter sido um falsário e usurpador das glórias de Colombo, pois na Marinha jamais passou de "botswain’s mate", subalterno, espécie de "faxineiro do mestre" e, finalmente Pedro alvares Cabral foi somente uma rapazinho de 32 anos, neto e bisneto de importantíssimos homens ligados ao império português, sem contar que sua viagem de comemoração pela posse do Brasil pode e deve ter sido preparada por Vasco da Gama, texto que Lenine Pinto Barros está preparando, exaustivamente. A política de segredos naúticos tinha incluía também "quem segue quem, quem fiscaliza quem..." duzentos anos se passaram para que a data do descobrimento, 22, ou 23 de abril fosse institucionalizada, portanto, entrando aí não só política de segredos mas também problemas de calendários, também autorizados pela Igreja.
A própria existência da Escola de Sagres ainda requer novas elucidações. E um certo Jean Cousin, francês, pode ter sido o primeiro descobridor do Brasil. Ou mesmo Duarte Pacheco, em 1498.. As cartas de Pero Vaz de Caminha podem conter desinformações propositais ou desconhecimentos imperdoáveis. O fato de Cabral não abastecer sua frota nas ilhas de Cabo Verde dão conteúdo ao fato da intencionalidade do "descobrimento", por sabido e preparado para a sua viagem de posse oficial, por outra expedição realizada por Vasco da Gama.

PORTO SEGURO VERSUS AGUADA

Porto Seguro é conceito controverso. Era apenas um local seguro para descanso das esquadras. Mas sobretudo um local onde se encontrava água potável, indispensável mesmo na navegação de pequeno curso, sempre que as reservas caíssem a níveis críticos. Assim foi que, em verdade, era o local onde se conseguia água chamava-se de "aguada", verdadeiro porto seguro. Daí que Porto Seguro, na Bahia, não garante que outros portos seguros não existissem, quer dizer – outras ‘aguadas". A questão cria o problema de tantos portos seguros que provavelmente Portugal apenas designou um, oficialmente, como ponto para comemorar o descobrimento da nova terra, o Brasil, com certeza já descoberto e visitado por outros povos, entre eles sobretudo os franceses. A questão, portanto, está em aberto no que se relaciona ao primeríssimo ponto no qual os navegadores tocaram no Brasil, que Lenine Pinto Barros correlaciona com o nome de "Ixola Otitincha", ou "Ilha Verdadeira", conforme consta de um mapa de Andrea Bianco, de meados do século XV, e que estava localizada lá pelos litorais potiguares, na Praia de Touros, onde os marcos chantados indicam posse, e não em outros lugares, onde alguns marcos têm um significado meramente comemorativo.

ENTREVEROS FAMOSOS E POLÍTICA COLONIZATÓRIA

Vasco da Gama, numa das suas tormentosas viagens, ao se defrontar com um motim por parte dos seus marinheiros jogou ao mar muitos dos instrumentos náuticos, impedindo que sua caravela voltasse ao porto de origem, por exigência da tripulação. Uma tempestade, em seguida, jogou-o nas mãos de Ibn Majiid, experiente piloto, em Meline, que o salvou em troca da libertação de um sheik árabe tomado com refém em Moçambique. Mas Vasco da Gama massacrou peregrinos, em conseqüência da política do Mare Clausum, ao abordar uma embarcação que levaria religiosos para Meca, num barco árabe de nome Meri. Abordado o barco verificou-se a presença de 380 peregrinos, que foram saqueados em doze mil ducados, e depois incendiados com pólvora, matando a todos e afundando a embarcação, sem libertar as crianças e as mulheres. Até alcançar Calicute ( Calcutá ) Vasco da Gama foi deixando um trilhas de saques. Mas Cabral também imitou Vasco da Gama, em Calcutá, quando ali os portugueses foram atacados pelos árabes e episódio no qual morreu Pero Vaz de Caminha, atacando as naus muçulmanas estacionadas no porto e fustigando a cidade com bombardeios, causando grandes estragos, capturando as naus dos invasores...
A Serra do Cabugi, no litoral potiguar, disputará a partir de agora, com o Monte Pascoal, no litoral baiano, o privilégio de haver sido o primeiro ponto geográfico avistado pelos navegadores marítimos ligados ao descobrimento do Brasil, com o lançamento das pesquisas de Lenine Pinto Barros, contidas no livro "Reinvenção do Descobrimento".
"Alea jacta est...", portanto, para os novos pesquisadores...

Obs: publiquei esta matéria na A Gazeta de Alagoas. Consta da minha página, na Internet.

SUSTOS E MAIS SUSTOS

Era muita coisa, muita emoção para dar uma ordem que existencialmente me permitisse, a um tempo me ajustar aos novos tempos e a outro poder ter alguma paz. Santana do Ipanema dominava minhas lembranças, minhas melhores lembranças. E não havia com as coisas não começarem por ali, no Ipanema, nas ruas, nas praças, na feira, no final da ladeira onde os carros-de-boi, também de bois, chegavam, rangendo suas rodas de madeira e circundadas por aros de ferro, anunciando, de longe, que estavam chegando, com suas mercadorias do campo para as feiras de quarta e sábado, religiosamente. E daquele homem, condutor, o carreiro, dos carros, com vara que tinha um ferrão para espetar os bois, disciplinando-os, tendo os seus nomes, pomposos, pronunciados bem alto mas com certo carinho. Em nossas brincadeiras infantis mandávamos fazer réplicas daqueles carros, carrinhos e em lugar de bois colocávamos os seus chifres. Também a varinha para dar ordem aos bois. Cada chifre recebia o nome da nossa imitação, ou imaginação.. Eu jamais imaginaria que, na maturidade, movido pelas lembranças, já em Maceió, viesse a escrever um conto com o nome de Pedrão, que abaixo transcrevo:

PEDRÃO

A ladeira ao lado da ponte do Camoxinga era o local onde os "carros-de-bois" paravam. Dali os matutos levavam as suas produções agrícolas para a feira, onde as vendiam. Do apurado das vendas compravam mantimentos e alguns utensílios domésticos, fosse uma enxada, uma pá, querosene, candeeiro, um chapéu e, por último carne verde e xarque.
A ladeira, cheia de "carros-de-bois" e os bois cada um com o nome mais bonito, era ponto de encontro dos meninos. O "carreiro", aquele que conduzia o "carro-de-boi", realizava manobras chamando pelo nome de cada boi. Os nomes eram caprichosos: "mimoso", "malhado", "vermelho", "teimoso", etc...etc. O "carreiro" usava uma longa vara que tinha na ponta um ferrão para espetar os bois. E nós, os meninos, ficávamos maravilhados com aquele espetáculo. Tanto que, também tínhamos os nossos pequenos "carros-de-bois" nas nossas brincadeiras. A observação dos "carreiros" ainda nos permitia ouvir histórias capazes de arrepiarem nossos cabelos, sobre a vida daqueles personagens. E uma delas, sobre um tal de Pedrão, fez com que eu insistisse junto a Téo - a preta velha que cuidava de mim - sobre a veracidade do fato. E ouvi:
– É verdade: ele enfrentou Lampião ! Vinha de uma viagem e entrou num povoado. Lampião estava ali com o seu bando. Parou o carro. Entrou na mercearia e pediu mantimentos. Lampião ficou calado. Pedrão era um "negão" grande e valente. Pagou a conta e quando ia saindo Lampião colocou-lhe a mão sobre o ombro e lhe falou:
– Gostei de ver. Você entrou. Não me pediu licença. Acho até que nem me respeitou. E quer sair do mesmo modo que entrou !
Eu estava atento e Téo continuou:
– Foi aí que Pedrão lhe respondeu dizendo que apenas estava de passagem. Que não desejava atrapalhar a festa de ninguém.
Insisti:
– E Lampião se conformou ?
Téo não perdeu tempo:
– Claro que não. E falou para Pedrão que ele não sairia dali sem que primeiro não tomasse uma cachaça. Mas Pedrão lhe respondeu que não bebia, que apenas gostava de trabalhar. E aí Lampião danou-se. Foi até o balcão, retirou um punhal da cintura e ali o enfiou com tanta força que o bicho ficou zumbindo no ar.
Téo parou um pouco e respirou:
– E aí gritou para Pedrão que ele podia fazer de tudo. O que não podia era lhe faltar com respeito. Naquela hora os “cabras” de Lampião tomaram posição de combate, apontando as armas para Pedrão.
Eu estava muito atento e Téo mal respirava. Mas continuou, séria:
– Foi aí que Pedrão foi até o balcão, retirou o seu punhal e fez o mesmo que Lampião. E o fez com tanta força que os dois punhais ficaram batendo um contra o outro, zumbindo.
Eu estava mais que ansioso:
– E falou alguma coisa ?
Téo parecia uma sacerdotisa:
– Claro. Ele gritou para Lampião que o ferreiro que havia feito o dele também havia feito o seu. E que talvez até já houvesse morrido.
Não me contive e perguntei:
– E então ?
Téo deu largo sorriso:
– E aí os “cabras” apontaram as armas para Pedrão, com os dedos nos gatilhos. Mas Lampião gritou para eles abaixarem as armas.
Téo se ajeitou na cadeira e prosseguiu:
– Passada a agonia Lampião falou para Pedrão que fazia muito tempo não encontrava um homem da sua coragem. E que um homem da qualidade de Pedrão não podia morrer senão em combate, como um homem devia morrer. E dizem até que convidou Pedrão para fazer parte do seu bando. Aí então Pedrão, com humildade, retirou o punhal do balcão, colocou-o na cintura, agradeceu a Lampião e lhe pediu permissão para continuar sua viagem, dizendo-lhe que aquele lhe seria um grande presente. E mais ainda, que se lembraria do seu encontro com Lampião, claro, aonde fosse e onde estivesse. E por último convidou Lampião para um dia ir lhe fazer uma visita, que seria bem recebido. Lampião disse para Pedrão partir a hora que desejasse, que estava livre. Depois, olhou para a “cabroeira” e ordenou que cada um gravasse bem a cara de Pedrão, para que nada pudesse lhe acontecer. Finalmente, abraçou Pedrão e ele partiu, acenando para todos.
Olhei para Téo e devo ter-lhe dado a impressão de incredulidade. Ela me olhou atentamente e me afirmou:
– Pode acreditar, filho ! Pode acreditar !...

AS FAMOSAS AREIAS DO IPANEMA

Nas areias do Ipanema brincávamos quando, de repente, os sinos da matriz começaram a tocar, desabaladamente. Algo, não me lembro bem aí por volta das 15.00 horas da tarde, 03 três horas, na verdade. Pànico geral. Pessoas correndo, Abraçando-se. E o nosso amigo Dalmo descendo a ladeira, desabaladamente, até nós, mal conseguindo falar. Instado, com veemência, desabafou:
- A guerra acabou. A mensagem chegou pelo correios E foi o “Seu” Darras Noia, o telegrafista, quem passou a mensagem para o Padre Bulhões, que mandou o Major, preto velho sacristão, tocar os sinos até segunda ordem. Ainda arrrisquei:
-Será que mataram os alemães? E Dalmo, ainda ofegante:
-Só pode!...
Em nossa infância catávamos papel das carteiras de cigarro, Selma, Yolanda Azul e tanto outros cujas carteiras trouxessem o os cigarros envolvidos por um papel aluminizado e os entregávamos para D. Maria Wanderley. E tudo era muito simples: seriam enviados como reforço de guerra para a Segunda Grande Guerra Mundial. Iriam para os altos fornos, novamente transformados em alumínio serviriam para que a indústria fabricasse novos aviões que substituiriam os abatidos pelos alemães. A pena que nos dava era porque aqueles papéis, bem arrumados, serviam como moeda de troca e compra, cada um com seu valor, no nosso pequeno comércio de brinquedos infantis. Mas ali estava, felizmente, uma motivação para que nos engajássemos na guerra contra os alemães e nos sentirmos também um tanto heróis...

Capítulo III
AS DUAS ENORMES SAUDADES

Nada me deixou mais saudade do velho colégio, Guido de Fontgalland, senão aquela varanda esplendorosa deixando o mar à disposição do meu sonho e da minha fantasia. O Rio Ipanema era apenas uma lembrança, um filete, provisório, de água, que apenas servia paras as fantasias dos meninos. E a outra grande saudade: D. Teônia de Barros, a professora de análise lógica, gramática e que sabia falar de Luiz de Camões. Acabavam as noites enluaradas e as viagens, em verdade, passeios, de bondes de Ponta da Terra até o Colégio Guido, transferidos, propositadamente, sempre que eu precisava economizar um dinheiro para outros fins, vindo andando entre os coqueirais daquela parte de Maceió.
A MUDANÇA PARA O LICEU ALAGOANO
A mudança para o Liceu se deu por conta de meu pai já não poder pagar as mensalidades do Colégio Guido. O Velho Liceu, de inspiração francesa, tinha outros moldes. Público, recebia alunos daquelas camadas que enfrentavam dificuldades orçamentárias. Mas, e também, pelo fato de ali serem boa parte do que havia em matéria de professores, de então. Preparadíssimos e envolvidos com aquele sonho de que ser professor é dar uma ajuda na formação de futuros profissionais, em todas as áreas do conhecimento. E isso correspondia a uma realidade até hoje incontestável.
Quando me mudei da Avenida da Paz, junto ao Riacho Salgadinho, foi um choque. Eu vivia entre colegas de idade, ou idades parecidas, maioria deles daquelas camadas sociais ditas abastadas. Minha família ainda podia algum luxo, a algum conforto. Depois vieram os jogos de baralho, na Fênix, onde meu pai perdeu tudo o que tinha acumulado ao longo dos anos. E baralho não era novidade em nossas vidas familiares. Em Santana, em nossa casa ao longo dos anos grupos se reuniam, na imensa sala de jantar e varavam as noite jogando baralho. Pelas manhãs, um sem número de baralhos, novinhos, jogados no chão. E diziam que aquilo era por conta de que, após duas ou três partidas jogadas os jogadores conseguiam, usando as digitais, identificar as cartas do baralho.
O sonho de comprar um sítio de coqueiros, em Maceió, havia ido de água baixo, no melhor sentido. E veio a mudança para a Rua Quintino Bocaiuva, um estranho nome, que achava até ridículo pronunciar, senão após vir a ficar sabendo que se tratava uma grande figura da República Brasileira. E somente então passei admirá-lo. A rua era estreita, lamacenta. E pior: meu pai havia fornecido uma procuração, para o dono de uma pequena mercearia, para que recebesse seu salário de aposentado e devolvesse o que sobrasse da conta devida e registrada em caderneta, pelas compras do mês. Um inferno...
Ficou mais longe para que fosse para os tempos finais lá no Colégio Guido. Lá pelo final de Pajuçara eu seguia por dentro dos coqueirais e terminava saindo na Barão de Atalaia, dali pegando a ladeira da nossa catedral e indo para o colégio, quando não recebia algum passe de bonde, algo maravilhoso, do meu tempo. Não fazia muito eu ia, todos os sábados, ao Cine Plaza, com meu grupo de amigos da Avenida, ver o festival de desenhos animados, seguindo o Riacho Salgadinho, à época com pequenos peixes e piabas, que corriam sobre e abaixo das suas águas cristalinas. Que mudança brusca? E então, o que avultava na minha cabeça era meu curso de Medicina, pelo qual eu daria todas e as últimas energias para que aquilo viesse a acontecer...”









O TEMPO NO LICEU ALAGOANO
(Um depoimento que dei para o livro do meu colega de turma Luiz Ferreira da Silva, engenheiro Agrônomo, para o livro: Tributo à antiga Escola Pública), publicado ano passado, 2013
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“.....Depoimento, simples palavras sobre o passado, ou o que possa vir a ser, será interessante ser precedido de certo cuidado. Sempre tenho em mente, e muitos autores responsáveis pensam assim, que lembrança, recordação e memória podem apresentar aspectos diferentes. Seus entrelaçamentos, suas interdependências, guardam características bem definidas. Lembrar é apenas recordar, avivar o passado. Mas existem lembranças, individuais, ou grupais, que tiveram tão forte conotação a ponto de mudarem a face dos acontecimentos, nessa ou naquela época. E aí, mesmo delicada, tal situação estaria muito mais para memória.
Lembro-me do Velho Liceu Alagoano como uma imensa ponte que precisei atravessar sabendo estar do outro lado algo que tinha o nome de futuro. A mesma ponte, menor, eu já havia atravessado quando do término do curso primário. Havia algo comum: os ciclos aconteceram na escola pública. Do Primário ao Liceu e daí para a Faculdade, também pública Tais fatos, inelutavelmente, marcavam uma condição social: meninos de classe média para baixo, atingindo o estudo como garantia futura. Maceió da minha infância e juventude tinha o seguinte quadro escolar: colégios Diocesano, Baptista e Guido, além do Santíssimo Sacramento, da iniciativa privada. E o velho Liceu Alagoano e Escola Normal, públicos.
Creio que estatisticamente fomos maioria em tais estabelecimentos de ensino, no Brasil. Os choques pedagógicos, falo do modo de ensino, certamente que existiram e aqui não dá para que sejam discutidos.
O Liceu poderia ser um tanto mais enfatizado, vez que se tratava de pedagogia francesa. Discutir a história daquele país seria extenuante. A Revolução Francesa, de 1789, somente cem anos depois soprou seus ventos, no Brasil, em 1889. O Liceu foi uma dessas heranças de ensino. Abelardo Duarte, velho mestre, nos deixou uma história daquele educandário, e a quem interessar possa seu documento está publicado na Internet.
Mas, o que me foi solicitado foram anotações da minha passagem por ali.
Pois bem: egresso do interior de Alagoas cheguei à Maceió e inicialmente estudei no Colégio Guido. Logo, meu pai, não podendo continuar arcando com os custos, mudou-me para o Liceu, onde terminei o curso colegial e ao mesmo tempo servindo ao Exército e em seguida passando no vestibular de Medicina. Fazia tudo, ao mesmo tempo: dia e noite ocupado.
Havia um curso de pré-vestibular, do Professor Trigueiros, que também não pude frequentar. E assim cheguei até a Faculdade de Medicina, estudando sozinho, em minha casa, no Prado. E quando ali cheguei não conhecia um único colega de curso.
Mas, voltemos Liceu e os bons anos de minha vida. Ali fui presidente do diretório de minha turma, no terceiro ano. Meramente formal, o diretório lidava apenas com problemas administrativos a fim de obter meios para a formatura. E como era natural não havia unanimidade de ação e pensamentos, entre os colegas. Claro, um grupo sempre se achava com raciocínios e razões mais brilhantes.
Desejaria realçar a importância da nossa formatura. Criamos um concurso de Miss, para o colégio. Inscreveu-se uma linda moça de nome Id Rodas. Vendemos ingressos para um baile.
Como havia um grupo dissidente negociamos uma viagem para Garanhuns. Na volta, novas negociações e, finalmente o baile tão esperado.
A miss Alagoas, de então, Rosa Paes, esposa do Dr. Carlos Paes, veio coroar a nossa Miss. A interlocução foi feita pelo radialista Jesualdo Ribeiro. Tudo já no amplo espaço do velho Instituto de Educação, Escola Normal, para onde haviam nos transferido.
A orquestra pertencia a um colega de turma. E veio a tragédia, provocada por um amigo externo, de extremo mau humor e disso se utilizou para acabar com o baile, deixando prejuízos instrumentais para o nosso amigo e algumas pessoas machucadas.
E bem me lembro da agonia do meu vice-presidente, Carlos Mesquita, em verdade, o grande organizador do evento.
O professor Mário Broad, então diretor do Liceu, claro, suspendeu as atividades do diretório, sem fechá-lo. E ainda pudemos cuidar da festa de formatura.
Rigorosamente, como presidente do diretório estudantil, sempre dividi os debates com os mais acirrados, com o amigo Luiz Ferreira. Ora discórdias, ora concórdias, mas e ao final, sempre o cumprimento dos acordos firmados em assembleias. Sempre nos moveu a inteligência, a racionalidade, modéstia à parte, alimentadas por certa inteligência que a natureza nos presenteou.
Insisto sobre o Liceu porquanto ele foi espécie de cadinho no qual éramos o material combustível. Ali estávamos sendo forjados para o futuro Um sem o outro não seria possível.
A nossa Maceió daqueles tempos, para nós, os meninos menos abastados era muito simples. De um lado o Liceu. A praia, principalmente a do Sobral, onde praticávamos futebol em suas areias ainda claras e que rangiam ao peso dos nossos passos.
Durante a noite, aos domingos, a Praça Deodoro, onde as mocinhas desfilavam e ouviam palavras de elogias ás suas belezas.
Fora isso a sessão vespertina do Cine arte, com seus filmes sobre a guerra, os feitos da civilização americana e os desenhos animados, tudo devidamente e progressivamente bem importados, e aos poucos interferindo na cultura tradicional, deixada pelos portugueses colonizadores.
Sempre tive um temperamento um tanto solitário. Aos poucos compreendi que a solidão era apenas um instrumento da seleção social, natural. E procurei naquela solidão a sua parte criativa, aquela que me permitiria ser o que sempre sonhei ser, ou seja, um escritor. O fato me ajudou a fugir das depressões e da tristeza, não culpar o mundo por algumas desditas, tão comuns à existência humana.
Escrevi livros e produzi documentários. Entrei para o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde sou o Secretário Perpétuo. Também entrei para a Academia Alagoana de Letras.
O Liceu está em minha vida. Foi minha vida. O que fiz agradeço ao ensino público. E quando passo perto do local do Velho Casarão costumo olhar para cima. Lembro-me das suas escadas. Elas nos ensinaram, em silêncio, que o ato de subir tinha um preço. Pagamos tal preço, todos nós: mas aprendemos a subir.
Algumas lembranças inesquecíveis:
Padre Sizenando: “meu amiguinho”: recém-chegado do colégio Guido, ainda no Ginasial, um trabalho sobre a Cachoeira de Paulo Afonsono qual ele me deu nota 8. Fui leitor de Castro Alves desde os 10 anos de idade. Havia lido a Cachoeira de Paulo Afonso e fartei-me na redação. E o velho mestre: “.muito bem, dei nota 08 ao aluno Luiz Nogueira. Não dei nota 10 para não torná-lo presunçoso....” Um outro colega que havia recebido nota 02 reclamou. E ouviu do velho sacerdote:
- Meu filho, você escreveu silêncio com C. e se esqueceu, ou não sabia, que silêncio tinha acento no E, o antigo chapeuzinho, o circunflexo. Você não lê nem cartaz em porta de cinema, aqueles que anunciam filmes. Mereceria mesmo era zero...
José Silveira Camerino: que uma vez pediu um roteiro, marítimo, do Atlântico para o Mar Negro. Expliquei-lhe a entrada do Gibraltar, o Mar Mediterrâneo, o Mar Egeu, os Estreitos de Bósforos e Dardanelos e o Mar de Mármara, como os caminhos. Assustado ele me respondeu:
- Pois não comandante. Serei passageiro sob o seu comando. Toque o barco...
Sílvio de Macedo: nosso filósofo. A última aula da noite. Uma noite, um nosso colega amarrou uma linha no dedo de um esqueleto guardado num fiteiro. O mestre falava e o colega puxava, levemente o fio e o esqueleto levantava o braço e os ossos faziam um barulho incômodo. Um silêncio, entre nós, combinado, ante o olhar de espanto do bondoso mestre. Duas, ou três vezes ele se levantava, calmamente, considerando a aula encerrada, saindo um tanto apressado, indo fazer queixas ao diretor, prof. Mário Broad. E, em suas aulas de filosofia, expressão de que já nem me lembro toda:”...Philoshofia est cognitio per ultima causa....”
Jamais poderia imaginar que um dia seríamos colegas na Academia Alagoana de Letras. E mais: que dele sempre receberia gentilezas inesperadas, sempre e sempre. E sofri, bastante, quando ele perdeu para Roberto Marinho, dono da Globo, uma eleição para ser membro daquela entidade nacional e padrão de cultura. Um absurdo...
Humberto Cavalcante. Professor de português. Fluente orador. Padre. Fumava muito. Muitas vezes precisei lhe fazer consultas sobre a nossa língua. Sempre educado. Mantinha com os estudantes, mais tarde muitos já universitários, excelente relacionamento. Tanto que, a missa da Turma de Medicina de 1963 foi por ele celebrada. E jamais imaginei que, um dia, seríamos colega na Academia Alagoana de Letras. Seus últimos anos de vida doente, morando do lado da Lagoa Mundaú, de onde avistamos o Bar do Pato, foi bastante freqüentado não só pelos acadêmicos. Gratíssima lembrança, do meu amigo.
Médico, terminei por me envolver um pouco mais com aquele doente ilustre.
Encerro, portanto, que não poderia me afogar num mar de lembranças.


Luiz Nogueira Barros é médico, sócio da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico d





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