Luiz Nogueira Barros
   
   
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ENSAIOS




15/05/2012 - 20h20min

Ao filósofo da indignação

Caro Marx

Fonte: Luiz Nogueira

Meu caro Marx: bom dia ! Aos 58 anos - com 40 dedicados à luta em prol da indignação universal do proletariado - estou a lhe escrever. Tardiamente ? Talvez ! Mas ainda em tempo, certamente. Não para violar o seu descanso sepulcral nem a sua genialidade. Mas para lhe falar sobre o discípulo que fui. E não fui dos melhores. No máximo fui ético e por pura intuição, vez que não entendia totalmente a sua doutrina, pecado, de resto, cometido pela minha geração, que se contagiou da sua indignação:"A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo ( íncubo ) o cérebro dos vivos".
Durante anos vimos - indignados - morrerem pessoas no mais extremo desamparo, na mais extrema miséria social. E depois - nos anos da nossa juventude - as mais notáveis pessoas da nossa geração: pelos processos repressivos da violência política. Ou então, murcharem como flores bissextas pela perda de esperança no futuro.
Não posso ir muito longe. Sua obra, meu caro mestre, é muito extensa. Mas também é inacabada, em pontos essenciais. O próprio "O Capital" é exemplo disso, na medida em que descreve a história do desenvolvimento industrial até onde lhe foi possível, desenvolve uma teoria econômica e interpreta, panfletariamente, a sua época. É como se fosse o contraponto da Bíblia. E tal O(s) Evangelho(s) presta-se a todo tipo de interpretação. Tanto O Capital quanto A Bíblia sofrem do problema da incompletude. Melhor assim, porque há sempre uma janela aberta. Lenin, segundo a crônica política, costumava agir com base nos eventos para, depois, procurar justificativas nas suas obras, meu caro Marx. Lutéro destruiu a teologia católica para erigir a protestante, também procurando justificativas nos ensinamentos bíblicos.
Escolho a dialética como ponto crítico, meu caro mestre. E ficaria longo voltar a Heráclito, Parmênides e Aristóteles ( embora deva recomendá-los aos noviços ), os mais antigos estudiosos da dialética. Fiquemos com Hegel, e sua dialética da tese, antítese e síntese, que o meu caro mestre tanto estudou e desenvolveu, embora não pressentindo que continuava utópico, embevecido pelo seu socialismo científico. Pois bem: consideremos que a miséria social fosse a tese e a solidariedade social fosse a antítese. O que se esperaria, para que se completasse a cadeia dialética que atingisse a síntese ( plano elevado, superior ), era o surgimento de uma nova sociedade, fraterna e, provavelmente, igualitária. Para tal, parecia bastar que a miséria social ( tese, ou protagonista da miséria do capitalismo ) fosse dobrada pela antítese ( indignação universal do proletariado e antagonista da miséria ), para que surgisse uma nova sociedade. E, é claro, criada pela indignação, nova categoria sócio-histórico-econômico-filosófica. O problema, meu caro mestre, foi que a indignação do proletariado ( conotação do trabalho explorado ) aconteceu apenas em países dominados pelo ódio disseminado pelas dinastias de reis déspotas e perversos. Vejam-se a Rússia e a China. E, mesmo quando aconteceu em Cuba e na África, é conveniente que se examine sobre o despotismo e a perversidade que predominavam naquelas regiões. E não aconteceu, até hoje, nos países que atenuaram o problema do despotismo e da perversidade, em todos os seus aspectos, após a queda das dinastias e a implantação de teses sobre o futuro, a liberdade e a esperança. Ao contrário, nestes países, em lugar da indignação surgiu outra categoria sócio-histórico-econômico-filosófica, a cumplicidade social com a miséria : incapaz de eliminar a miséria social, mas, interessada em conter em níveis críticos os seus efeitos sobre as mudanças sociais, rompendo a cadeia dialética da tese, antítese e síntese, prolongando o ciclo histórico, estacionário desde o fortalecimento e melhor configuração do capitalismo, com a Revolução Francesa.
No tocante às noções de direito e de Estado, também não posso deixar de fazer algumas anotações. Por exemplo: se nos antigos regimes, e atualmente no capitalista, a classe dominante tem o direito de matar, seja através das guerras, seja através dos baixos salários, essa é uma terrível noção de direito a sustentar um Estado realmente condenável. Mas, e devo lembrar-lhe, meu caro mestre, que a última e grande experiência socialista (ex-URSS) também criou uma máquina burocrática que se utilizou do direito de modo idêntico, quando puniu seus próprios criadores e consolidadores. Foi como se, ao direito da classe dominante capitalista se opusesse o direito do proletariado, ou então em nome do proletariado e, com isso se justificasse um Estado também condenável. No fundo, meu caro mestre, o que a história nos mostra, em tudo isso, é um jogo de ponto e contraponto históricos. Fato que, termina por dar alguma razão a Hegel, quando nos diz: "A história não é o reino da felicidade. As épocas de felicidade são suas páginas vazias" Quer dizer: continuaremos escrevendo a nossa história, com uma humanidade atônita e em busca da felicidade.
Nada nos impede, meu caro Marx, que mantenhamos a nossa indignação diante do espetáculo de miséria que é o mundo. O problema é que a indignação já não parece servir ao proletariado como instrumento revolucionário. Vejamos o Brasil: o proletariado, quando lhe foi possível, tornou-se proprietário através da compra de ações na Bolsa de Valores. E mais que isso: está dividido em CUT, CGT e Força Sindical, mergulhados num sindicalismo ora de confrontação e ora de resultados. Ao seu apelo "Operários do mundo, uni-vos!", preferiu atender à sentença de Errico Malatesta, anarquista italiano: "As dificuldades da classe trabalhadora não geram, necessariamente, o fenômeno da solidariedade irrestrita entre as suas várias categorias", quebrando a cadeia dialética da tese, antítese e síntese, mandando a indignação universal do proletariado para o espaço.
Confesso que toda a sua obra é brilhante no sentido de haver diagnosticado o seu tempo, quando ninguém (por incapacidade e interesses inconfessáveis) se preocupou em buscar o sujeito social da ação histórica, que o senhor identificou - para o futuro e bem da humanidade - no proletariado universal.
Nada será capaz de conter a nossa indignação diante das misérias do mundo. Mas - e aqui está o ponto, meu caro mestre - a indignação carece de ser uma categoria sócio-histórico-econômico-filosófica para se tornar apenas uma categoria humanística. E a humanística implica na aceitação de todas as demais ciências e embriões de ciências ( e até mesmo nas chamadas falsas ciências ) e não apenas nas ciências sociológicas, históricas, econômicas e filosóficas. Pergunte-se, por exemplo, a um místico, a um religioso, a um matemático, a um físico, a um biólogo, etc, o que eles pensam da indignação como instrumento de mudança social. E não nos afobemos com suas as respostas. Antes, e isso é fundamental, preocupemo-nos com o fato de que todos estão dentro do organismo social que escolherá, ou não, a indignação como fator de transformação social.
O problema da dialética, meu caro Marx, é que ela não permite o conhecimento da criatura humana, em si mesma. Nesse campo andamos muito pouco. E, paradoxalmente, Sócrates ainda parece o único filósofo atual. Ao menos quando nos diz:" Conhece-te a ti mesmo". E desde então nada mais fazemos.
O problema, meu caro Marx, é que até hoje não funcionou a sua indignação, um corte vertical entre os mais antigos e os atuais apelos ao humanismo - feliz ou infelizmente. E descanse em paz na sua sepultura, que a sua parte foi feita de modo até certo ponto brilhante e genial. O problema é da humanidade. Estamos muito longe de uma definição sobre se o que bom é a natureza humana ou as entidades por ela criadas e pensadas como eternas, dilema deixado por Jean Jacques Rousseau.
E hei de morrer, a um tempo indignado e a outro cheio de esperanças no nascimento de algum gênio que descubra o segredo social da humanidade. John Fichte, com o seu eu universal ( aquele que passaria por cima de todos os eus particulares ) pode ter sido o último pensador de boa vontade a imaginar uma ponte possível entre o eu subjetivo e o eu objetivo. Mas, em seu livro "O Estado Racional Burguês", terminou fornecendo elementos para uma forma de Estado conflitante para com os seus cidadãos, diferentemente de Hegel, quando, em sua obra " A Fenomenologia do Espírito", pensou que a união das cidadanias terrestre e celestial fosse possível - como objetivo supremo da história.
Descanse em paz, meu caro mestre: cada um faz o que pode.
O Diário, - 07. 05. 94





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