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10/07/2012 - 08h47min

Peleja dos falsários

Áurea poética de Bernardo Mendonça

Fonte: Luiz Nogueira Barros

Livro de versos de Bernardo de Mendonça, poeta alagoano, Maceió 1950, e atualmente residindo no Rio de Janeiro, depois de peregrinações por Minas Gerais.
O títitulo do livro já nos coloca uma questão grave, uma peleja entre falsários e onde se imagina, de saída, que tudo pode acontecer – num mundo de fato no qual os grandes falsários por vezes estão no ápice da pirâmide social, mas também dos produtores culturais medíocres, ambos erroneamente mitificados. E mais ainda o livro nos alerta com os sete prefácios, todos a partir de um mote único.

“Jamais lerá o poema
Quem suprimir este verso:”
E a resposta-observação com a seríssima observação:
( Onde confessa-se o escriba,museu e usina de lixo
de toda a lira perdida )

Passado o susto do leitor começa uma viagem através dos espaços onde se encontram produtores culturais do passado, dentro da noite, dentro de um bar, ao lado de um rio e, enfim, onde a lembrança do escriba os consegue localizar, hajam sido poetas não importando se folclóricos, parnasianos ou o que mais se presuma, pois o convite inicial, do escriba, está no poema “Imagens”, e nasce dentro da noite:
“A noite aboia
todos os Ascensos
pelo pasto grande
e sujo do tempo”

A lembrança, do poeta nascida na Avenida da Paz, tem seu olhar fixado num certo olhar do passado, numa foto de porta-retrato:

“...o olhar de vigília
no porta-retrato.
O poeta constata
Que acorda entre os mortos”

E então, antes que o dia amanheça e “o sol enxugue os telhados” o escriba, no poema “Peleja’, numerados, num total de nove, sai a beber com o poeta Ascenso Ferreira, grande e desajeitado, o vozeirão, altivo, diante do mirrado e tísico Augusto dos Anjos, sobre o qual Ascenso levanta suspeita de não ser aquele que ele conheceu, mas apenas um falsário. A indústria da sina – a questão dos destinos – assume a perspectiva não filosófica tradicional, mas da crendice popular que se alimenta de conteúdos teológicos da Grécia de Tales de Mileto, dos quatro elementos fundamentais.....

“Bebemos na cuia,
junto ao tonel,
abrindo a garganta
por tudo o que é vão
entre o céu e o chão”

...embora conserve certo conteúdo analógico shapeareano do “entre o céu e a terra há mais sabedoria do que pensa a vã filosofia”. A terra de Bernardo de Mendonça é o chão por onde pisa, e o céu é aquele propício à viagem e a poesia., pela linha do trem, pelos bares que ele vai indicando ao homenagear seus donos, seja o Mundinho, seja o Djalma, outros tantos, e mais importante, “o além”, o adiante, desde que a poesia, o verso, assim o exige, criando uma perspectiva sem fim para os notívagos, os amantes da noite. Mas os vultos da noite, os notívagos de Mendonça Braga, são muitos: Humberto Mauro, Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Di Cavalcanti...

Bernardo de Mendonça, o escriba, o poeta, trabalha facilmente com o que se chamaria de contradições analógicas (ditas pelo popularesco como trocadilhos, provocações, motes, etc.), que detecta com extrema habilidade no cancioneiro popular, estilizando-as:

“Encontre o engenho
.Procure o Recife.......
Encontre a ingazeira
procure o agazalho...
...Procure a glândula
encontre a mama...
...Leia : barbuleta
releia crisálida.
...Escreva: morena
releia: monera....”

E por aí o poeta vai varando a noite, com seus vultos perdidos. E até pode acontecer que algum dos vultos ache-se perdido entre tantos outros, tal “mais um devastado\ pela maldição\ do saber vão: o excesso errado.” E por aí Bernardo de Mendonça questiona os milhares e milhares de versos escritos e esquecidos ( espécie de excesso errado ? ), até que se descubra que o sol é sol e alguém repita um verso guardado na lembrança, num ato inusitado da memória – para o espanto dos noctívagos e do escriba.

Em “Abc e contas do versejador” Bernardo de Mendonça vai estabelecendo certos itens para um Códigos de Ëtica, para um mundo no qual as condutas, talvez corretas e incorretas , estão por todos os lados:
“Que o versejador
conheça seu lugar:
permitido sentir
proibido pensar.....

Abre-se exceção:
À lógica avara:
A emoção contida
Numa palavra rara....
...à lírica sensata
metáfora à mão
feito uma mordaça....
...ao poeta-maior
esse grande arquivo
dos autos de exclusão...
...neste país povoado
de candidatos a tudo...
...que o poeta aplauda
que o poeta exploda....”

A poética de Bernardo de Mendonça não se restringe apenas ao estilo asseado, exato e sibilino, senão que vai invadindo os labirintos da filosofia e da sociologia, desnudando, violando cânones, recriando a partir do já visto e vivido, pois “o poeta, alma de dor secretas, não pode naufragar calado”, ou então porque apesar dos séculos de sonhos isso não pesará nos seus ombros – que provavelmente suportarão mais cinco séculos de sonhos.

A poética de Bernardo de Mendonça é extremamente lírica e culta. Seu atávico amor por Maceió, em plagas distantes, compõe uma aquarela com conteúdo épico no recôndito da sua memória, e que vale como um desafio ao mais arrojado dos pintores, quando o vate compõe “Cantigas para Maceió”:

“Aqui o olhar se excede,
aqui o olhar se amplia,
aqui o olhar precede
o que olhou e olharia.
Aqui o olhar multiplica,
Aqui o olhar exagera,
Aqui o olhar não limita
O que será e o que era....

.....Comer Maceió na carne
de sol, no leite de coco,
comer Maceió por dentro
dos capotes, no pirão,
na branca, secreta entranha
dos caranguejos uçás.
Comer Maceió no fundo
das panelas de xaréu.
Comer Maceió nas frutas,
Nas mangas-rosas carnudas,
Não só comê-la, sorvê-la,
Cajá, pitanga, mangaba...”

“As cantigas para Maceió” é o poema mais lindo que li, feito pelo poeta que nasceu na Avenida da Paz, defronte ao mar. ‘E um épico nem tanto pelo tamanho, mas, principalmente,pelos conteúdo e estilo.
Bernardo de Mendonça já não pode ficar oculto,essencialmente em Maceió. Seu livro há quer lido e passado para todas as gerações,para as mais jovens, pois se trata de um poeta excelente porque, se o disser extraordinário pode parecer um exagero.....

Luiz Nogueira Barros
Maceió
10.11.98
OBS: não publicado em jornais alagoanos.








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