Luiz Nogueira Barros
   
   
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CRONICAS




09/03/2013 - 13h43min

Eudes Jarbas

Eudinho

Fonte: Lukz Nogueira/Francisco Valois

Eudes Jarbas

1 -"Dois dedos de leite !..."
2 - O último pedido, em poema, de Eudes Jarbas
3 - Atualização de dados enviados por e-mail, por Francisco Valois
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Dois dedos de leite

Nascemos em tempos diferentes. Também transitamos em espaços diferentes. Quase não tínhamos memórias, lembranças, sobretudo da juventude, a conferir. Lembrava-me dele mais que ele de mim, em nossas conversas. Ele ria quando eu lhe dizia ser um admirador da sua poesia, dos seus sonetos, sobretudo do soneto "Lenda de Aladim", verdadeira versão romântica do que se poderia chamar de "o grande mosqueteiro do amor", que ele personificava naqueles versos, animando os jovens poetas, com sua verve amorosa, a tentarem imitar tão feliz produção poética.

E de uma vez ele me disse:

- Acho que me lembro de você, sim, sempre ao lado do Christiano, que não gostava de política. E você gostava, o que eu achava estranho.

E numa das vezes eu lhe expliquei como evitei Christiano se envolver em política, quando, numa intensa luta pelo diretório da Faculdade de Direito, ele poderia ter sido tábua de salvação para uma situação dramática entre esquerda e direita, e depois naufragar, pela incapacidade de absorver os choques daquela natureza, dos tempos de então.

Mas os anos passaram e lá um dia o reencontrei na própria casa de Christiano, que o recebia numa noite na qual ele era o grande esperado. Mais para o frio, a noite nos reunia: eu, Stéfani Brito, Sidney Wanderley, Gonzaga Leão, Francisco Valois, entre os tantos dos quais me lembro.Franzino, cachecol ao pescoço, blaiser, olhando o céu, o céu dos seus poemas, temeroso da friagem da noite, falava baixo, pausadamente, risonho como era, agradecendo a todos para, depois, num esforço visível, já acometido por intenso enfisema pulmonar, declamar seus sonetos, agradecido.

Os tempos foram passando e novamente reencontrei Eudes nas reuniões do Sítio Velho, de Braúlio Leite, seu velho e querido amigo. Sempre um diplomata, herança dos seus anos de Ministério da Justiça, ligado a área de diplomacia, o que conferia de " Eudinho", agora, uma aura de muito respeito.

Depois passei a visitá-lo em casa, por conta das nossas ligações com a página literária de Francisco Valois, do "O Jornal", dos domingos, onde sua coluna "Comentando" tinha conteúdos panorâmicos sobre a vida alagoana, com pormenores que ele tratava no mais puro estilo de analista, sempre com altivez diplomática. E aí nossa amizade foi se aprofundando. E muitas vezes, quando precisei redigir algum documento que tivesse uma caráter mais oficial, discutimos qual a pessoa verbal apropriada que deveria ser usada. De outras vezes, porque me apoiou fortemente durante a minha candidatura para a Academia Alagoana de Letras, irmão que era, de Heliônia Ceres, falava-me mesmo de algumas estratégias para fins ao objetivo ao qual me pretendia.

Um dia propus seu nome, como sócio honrário, para o IHGAL, e cuja proposição foi aprovada por unanimidade. Preparou um pequeno discurso de agradecimento, que seria lido pelo seu filho. No aguardo de uma sessão para tal acontecimento, sempre me dizia:

- Não tem pressa. Quando de uma sessão com pauta menos intensa você me avisará !

E lá um dia o meu amigo foi para a UTI. Fui lá, de imediato. Estava muito cansado, a respiração ofegante. Mas lúcido e animado, ditando o que deveria ocorrer nos próximos dias. Preocupado com os amigos. Pedindo-me para que, ao dar a notícia ao Bráulio o fizesse com moderação. Como médico eu já houvera dito muitas mentiras durante o acompanhamento de outro amigo falecido, Arnoldo Jambo. E teria que voltar a mentir, nas minhas informações, ao também meu amigo Braúlio. E o fiz com a galhardia que de repente toma conta de nós, os amigos, engajado que fui, inesperadamente, nesse novo grupo de amigos que a idade madura me presenteou e que tem me propiciado alegrias pelo convívio, e tristezas quando a morte um deles vai retirando do nosso convívio, por caprichos alheios às nossas melhores reflexões sobre o viver e o morrer.

E um dia, numa manhã, na UTI, monitorado, mas ainda falando, me pediu:

– Nogueira, estou com muita fome. Consiga-me pelo menos dois dedos de leite, para tapear o meu estômago !

Quando o vi da última vez seu olhar já estava parado, sem horizontes. Baixei-lhe as pálpebras, cuidadosamente. Eudes já não era o romântico e impetuoso espadachim do soneto "A lenda de Aladim", mas o amigo, envelhecido, apagando-se, lentamente, tal a chama de uma vela.

O Jornal – Página Artes e letras – Francicsco Valois – 03.10.99

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Último poema do meu amigo:

( Com foto, constante de documento distribuído na missa de sétimo dia )



Querida...Quando eu morrer
Me tome nos braços como filho,
Me deite na cama, vista meu corpo e,
Penteie os meus cabelos
Entrelace minhas mãos sobre o meu peito
(Como se eu estivesse fazendo uma Prece )
Não me molhe com suas lágrimas
E não amasse a minha roupa...

Com seus braços
Beije, apenas, minha testa,
Sem deixar os vestígios dos seus lábios.
Lembre-se que vou partir
Para uma longa viagem...
Vou me encontrar com Deus
E não quero que ele me veja em Desalinho.



21.02.1925.

26.09.1999


Biografia

Colaboração de Francisco Valois, via E-mail

Data: Thu, 7 Oct 1999 07:49:07 -0300

De: "valois"

Para:

Eudes Jarbas de Melo

(Maceió, Al., 21/02/1925 - 27/09/1999)

Jornalista, poeta, contista e cronista, publicou os seguintes livros:

Teias de Ilusão e Ninho de Rosas (poesia), O Lobisomem (contos) e Etiqueta - Regras de Comportamento Deixou inéditos
"Além da Imaginação" e "Estórias que eu ouví contar", ambos de contos.
Assinava, dominicalmente, a coluna "Comentando", em "Letras & Artes", página literária de O Jornal, coordenada por Francisco Valois.
Foi o primeiro cronista social de Alagoas, mantendo uma coluna diária em um dos principais jornais de Maceió, na década de 50, sob o pseudônimo de Dóris Cristiano.

Eleito recentemente sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Morreu antes de tomar posse.






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