Réquien para Mayakovsky

( ou contra-poema do amor cativo )

E foi dessas colunas, num certo dia flautas vertebradas,

Do poema "Flauta Vertebrada", de Mayakovsky,

que de tantos cantos entoarem sobre as dores do amor

que o crânio do poeta se elevou em taça

e vinho aspergiu em honra das amantes mortas,

para a tristeza das Silfides ,

ainda vagueando soturnos e noturnos cemitérios.

. E jamais daquelas outras, de Atlas –

- que sustentavam o mundo –

que entre os homens e mulheres

malgrados os triunfos e blasfêmias,

deitou raízes e floresceu o amor

nos bosques onde ninfas e fáunos

ouviam sons de flautas mágicas.

E foi que Deus,

temeroso de blasfêmias mas prudente,

fez do amor um cativeiro.

E fez do homem um Prometeu Acorrentado,

e fez da existência um penhasco sobre as águas,

e fez do calor de certos seios imprevistos

nos roteiros delirantes das paixões humanas,

fonte única do amor dos peregrinos dessa arte.

E disse:

- Carregarás o peso que te atormenta,

tal a leviandade com que pensaste e temeste

o verdadeiro e único amor !

E foi, também, e aí, que o poeta Maiakovski,

temente ao amor-único como fim último da existência,

blasfemo, insone, sem companhia na noite,

o peito ardendo tal o inferno

na noite fria de Nevski,

o pensamento incandescido,

pedindo a Deus ser amarrado à cauda de um cometa

para em seu giro se estraçalhar nos dentes das estrelas,

ou então ver na Via Látea a forca merecida

onde Deus o esquartejasse,

que o grito primitivo saiu do fundo

de uma alma amargurada pelo medo

e pela negação de um Ser Supremo:

- Mas afasta, Deus, de minha vida,

a que me escolheste como a verdadeira amada !...

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