"Soarizando" - os desvalidos, o céu e o inferno !
( Ao Soares Feitosa, poeta épico do Siarah - Terra do Sol ! )
................................................................
E logo essa gente insensata
instalará duas aduanas:
Uma na porta do inferno,
e outra na porta do céu !
E cobrará impostos das almas:
Se o inferno o preço baixo,
se o céu o preço alto !
E quem chegar das terras quentes
onde comeu palmas de espinhos
e trançou cestos das palhas
das carnaubeiras da Catuana,
que o poeta torna épicas no poema,
há de lembrar-se das falas do poeta siarahense,
que interroga em nome de todos os desvalidos:
" - E falo de coisas aos padecentes do silêncio !..."
um silêncio-mancha-glacial que atravessa os séculos
sem respostas, nem um murmúrio,
e em nome do quê até hoje não se sabe...
Também há de lembrar-se de Otavio Paz:
"- Dios que al silencio del hombre que pregunta
constestas com um silencio más grande..."
E também, enfim, de Castro Alves:
" - Deus, ó Deus onde estais que não respondes ?..."
porque são muitos e tristes,
sem rede e sem viola,
os pés furados de espinhos,
os olhos queimados de sol,
sonhos mortos nos ninhos,
que nem migrar pensaram um dia
morrendo da morte-esperança
nas terras secas, rachadas!
E agora olhando as portas,
Lá do Céu e do Inferno
sem conseguir ler as frases
ardilosamente escritas
- por ser um analfabeto -
o peregrino há de perguntar:
- O que está escrito aí, seu moço ?
E ouvirá:
- Novo imposto !
Mas se preferir o Inferno
então o preço é mais baixo....
Aturdido, o peregrino,
- Filotectes dos sertões -
mas sem perjuros nos lábios
há de pedir tradução
das frases ali escritas.
E ouvirá, do cioso funcionário:
- Na entrada do Inferno está escrito:
"Renunciai às esperanças, vós que entrais !..,"
já na porta do céu está escrito apenas
uma tabela de preços...
É possível, então,
que o peregrino
responda sem vacilar
fazendo o sinal da cruz:
- Vou mesmo pr´o Inferno que já não faz diferença,
ou apodreço aqui fora:
que pagar não tenho com quê !...
Luiz Nogueira Barros------------Maceió, 29.08.98